A força do cooperativismo agricultura brasileira

 

Em meados de maio, representantes da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e da Embrapa Hortaliças estiveram em Botsuana, na África, onde ministraram cursos sobre gestão e planejamento em cooperativas e, também, sobre pós-colheita em hortaliças, com base na experiência das cooperativas do Brasil. A ação se deu graças a um projeto de cooperação entre os governos do Brasil e de Botsuana, intitulado “Fortalecimento do Cooperativismo e Associativismo Rural em Botsuana”, que é financiado pela Agência Brasileira de Cooperação e executado pela OCB. A partir da primeira experiência, o modelo deverá ser replicado para outras regiões de Botsuana.

Representantes de vários países- muitos deles da África – têm procurado entender a expertise brasileira para o desenvolvimento de cooperativas agropecuárias. “É claro que ainda há muito a se fazer quando falamos em gestão, aumento da competitividade, crédito, governança e sucessão na propriedade rural. Mesmo com estes desafios diante de nós, temos nos esforçado bastante para oferecer ao país não só grãos ou carnes, mas confiança. Sem confiança não há produção no campo. Sobre isso, acredito que estamos no caminho certo”, afirma Tânia Zanella, gerente geral da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

Trabalhando em conjunto, os produtores contam com serviços oferecidos pelas cooperativas, que vão desde o fornecimento de insumos, classificação, beneficiamento e armazenamento de produtos agropecuários, assistência técnica e agroindustrialização. Contudo, as cooperativas, assim como todos os outros players do setor econômico nacional, inevitavelmente, sentem os efeitos da crise política e econômica que atravessa o Brasil. Apesar disso, pela natureza distinta das empresas mercantis, elas possuem uma capacidade diferenciada de minimizar os impactos deste momento turbulento da economia. “Estamos fazendo nosso dever de casa”, brinca Tânia. Porém, por ser um país continental, o cooperativismo agrícola não é uniforme no Brasil.

No entanto, as cooperativas brasileiras têm uma característica comum, do Norte ao Sul do País: são formadas, em geral, por pequenas e médias propriedades. “A única forma do pequeno e médio produtor ter a infraestrutura necessária para receber, armazenar, industrializar e comercializar, é se organizando. Ele não vai ter acesso ao mercado se não tiver estrutura para isso”, afirma José Roberto Ricken, presidente do Sistema OCEPAR (Organização das Cooperativas do Paraná) e representante da Região Sul do Brasil na diretoria da OCB.

Ricken representa um setor que fatura 60 bilhões de reais por ano, só no estado do Paraná, e que planeja alcançar 100 bilhões de faturamento até 2020. Entretanto, o setor enfrenta diversos gargalos. A maioria deles, ligados à infraestrutura. “Hoje, a estrutura de custos para produção agropecuária, e mesmo produção industrial, é muito elevada”, reclama. “Outro ponto é o custo financeiro, que é o maior do mundo.

O terceiro fator é a estrutura tributária, muito elevada. Presentes em mais de 100 países, reunindo mais de 1 bilhão de pessoas e gerando mais de 100 milhões de empregos, as cooperativas são importantes formas de organização econômica. No Brasil, 6.500 cooperativas reúnem cerca de 12,7 milhões de pessoas e são responsáveis, direta ou indiretamente, por 48% de toda a produção agropecuária do País. Os números impressionam. A participação das cooperativas no PIB do agronegócio é de cerca de 10%. As cooperativas agropecuárias respondem ainda por 21% da capacidade estática de armazenagem de grãos do país, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC) vêm apontando o potencial econômico do cooperativismo brasileiro para a balança de comércio exterior do país.

Em seção destinada ao comércio internacional, o MDIC divulga regularmente dados que contemplam as transações diretas, importações e exportações das cooperativas. O compilado das exportações e importações em 2015 aponta crescimento de 1,3% no valor total exportado pelas cooperativas, alcançando a cifra de US$ 5,3 bilhões. No ano passado, 222 unidades cooperativas, 132 matrizes e 90 filiais, realizaram exportação de forma direta. O cooperativismo brasileiro atingiu 148 mercados estrangeiros no período. No Ceará, Nordeste do Brasil, os desafios são outros. “Estamos trabalhando fortemente com as cooperativas de produtores da agricultura familiar, buscando organizá-los para que tenham acesso aos programas governamentais”, conta João Nicédio Alves Nogueira, presidente da OCB no Ceará. O incentivo à agricultura familiar surge depois da lei que foi aprovada, onde no mínimo 30% dos recursos para merenda escolar tem que vir da agricultura familiar. O Estado passa por um processo de revitalização do cooperativismo agrícola que começou há menos de uma década. Para isso, a OCB Ceará vem trabalhando em uma série de medidas para alavancar o setor, a maioria voltada para qualificação e profissionalização dos grupos produtivos. A ideia é capacitar o produtor e transformar os líderes das cooperativas em executivos.

MUNDO A FORA 

A Organização das Cooperativas Brasileiras faz parte da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), uma organização sediada em Bruxelas, na Bélgica. Fundada em 19 de agosto de 1895, a ACI sobreviveu às guerras mundiais, crises econômicas e políticas. Considerada a organização internacional não governamental mais antiga do planeta, foi uma das primeiras entidades a participar do Sistema ONU.

A ACI tem como membros organizações representativas de cooperativas de 96 países em todo o mundo. Atualmente, 262 organizações fazem parte da entidade, abrangendo todos os tipos, tamanhos e ramos de cooperativas. O Conselho de Administração da ACI é formado por 15 membros eleitos em Assembleia. Nos últimos vinte anos, o Brasil tem sido representado no Conselho.

Para uma organização se filiar à ACI sua indicação deve ser aprovada no Conselho de Administração e ela deve colaborar financeiramente com a organização anualmente. O valor pago por cada organização é calculado a partir da quantidade de membros que ela representa.

PRINCIPIOS DESAFIOS E URGÊNCIAS

O cooperativismo brasileiro tem muitos desafios diante de si. E, por reunir 13 setores econômicos, dentre eles a agropecuária, muitas das necessidades e urgências do setor dizem respeito às cooperativas deste ramo também. Em breve o Sistema OCB entregará ao presidente da República em exercício, Michel Temer, um documento contendo as principais demandas do setor. A lista contempla cinco eixos principais: o reconhecimento da importância econômica e social do cooperativismo, a simplificação da carga tributária, a ampliação e adequação do acesso ao crédito e linhas de financiamento público às cooperativas.

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