África, o desafiador presente do continente do futuro

Responsável por 40% do PIB do África, a agricultura é uma fonte de renda para mais de 70% (setenta por cento) do povo africano. Com forte potencial para se tornar um dos principais fornecedores mundiais de alimentos, o Continente encontra pela frente desafios como deficiências tecnológicas e uma capacidade limitada para inovação. Esse panorama vem sendo mudado aos poucos através de importantes intercâmbios de conhecimentos científicos tecnológicos.

Nessa perspectiva, representantes de governos e do setor privado, líderes empresariais, investidores e acadêmicos se reuniram na cidade de Foz do Iguaçu para participar do 4° Fórum Brasil África, em novembro de 2016. O evento, organizado pelo Instituto Brasil África (que publica a ATLANTICO), não só buscou reforçar o diálogo entre a África e o Brasil no campo da agricultura como trouxe novas perspectivas para parcerias institucionais e oportunidades de negócios. Os africanos olham para o Brasil em busca de inspiração para reduzir a pobreza e aumentar a produtividade. Já os brasileiros encontram na África um campo repleto de possibilidades.

Embora a agricultura seja a principal fonte de subsistência africana – emprega a maioria (⅔) da força de trabalho – não se tem dado a ela a devida importância na Cooperação Sul-Sul”, lamenta Yemi Akinbamijo, diretor executivo do Forum for Agricultural Research in Africa (FARA). “Por outro lado, é estimulante que o Brasil tenha priorizado a agricultura como o principal campo de cooperação com os parceiros do Sul.

Relevante em todos os aspectos, a África é o segundo maior continente da Terra, possui 60% da terra não-cultivada do planeta, 30% das reservas minerais globais e 15% da população mundial. “US$ 1,4 trilhão de gastos com consumo e também a segunda maior população urbanizada até 2020 estão lá. Todas estas razões expõem a dimensão do potencial para investir na África”, lembra Andréa Menezes, presidente do Standard Bank no Brasil.

Defensor de cooperações com o Brasil em áreas como pesquisas, mecanização e infraestrutura, Chiji Ojukwo, diretor de Agricultura do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), chama atenção para as mudanças que a agricultura no continente africano deve sofrer nos próximos anos. Segundo ele, o AfDB espera investir entre 2017 e 2019 em pelo menos 92 projetos agrícolas, distribuídos por todas as regiões africanas.

Para o banco, infraestrutura, agricultura, energia e ambiente de negócio são integrados e não podem ser analisados de maneira isolada. “O acesso universal de energia até 2025 implica no investimento de 60 bilhões de dólares por ano para que se faça possível um incremento na produção em 160 gigawatts/ano. Para tanto, faz-se imprescindível o investimento privado”, revela Kapil Kapoor, vice-presidente do AfDB, acrescentando que 60% da população da África depende da agricultura.

O Brasil passou por um processo semelhante. Há 50 anos, o País era importador de alimentos e nas últimas décadas, tornou-se um dos maiores exportadores do mundo. “Aqui o produtor planta milho e colhe frango temperado, pré-cozido e pronto para consumo. Aqui o produtor planta soja e colhe presunto, iogurte e outros produtos com valor agregado”, brinca Jorge Samek, diretor brasileiro da Itaipu Binacional. “O Brasil também já deu um salto enorme na área de defensivos, nutrição, tecnologia em termos de máquinas e equipamentos, máquinas para plantio, para colheita e armazenamento”, acrescenta Luiz Cornacchioni, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

O agronegócio brasileiro possui status de referência mundial, ao lado dos maiores exportadores de grãos do mundo, juntamente com Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina e União Europeia. Além disso, o governo brasileiro tem realizado projetos de cooperação técnica por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em países como Togo, Tanzânia, Gana, Moçambique e Angola.

Os projetos, principalmente de transferência de tecnologia, têm ajudado no desenvolvimento de culturas como mandioca, feijão e algodão. Setenta e dois por cento dos recursos de 2016 investidos pela agência estão na África, em parceria com outras fontes governamentais e do setor privado.

“Temos, hoje, 107 parceiros e nos próximos três anos investiremos 18 milhões de dólares na África”, revela o embaixador João Almino, diretor da ABC. Entre os destinos dos investimentos estão o fortalecimento da pecuária leiteira de Burkina-Faso, o apoio para a instalação de unidades do sistema PAIS (Produção Agroecológica Integrada Sustentável) no Senegal e o apoio ao aumento da produção e do consumo doméstico de mandioca, com vistas à segurança alimentar e à geração de renda no Quênia.

De olho nessa aproximação, o governo da Nigéria tem se mostrado bastante interessado no que o Brasil tem a oferecer. “A Nigéria tem potencial para ser tornar uma grande parceira comercial do Brasil, mas é preciso que exista uma reciprocidade”, diz o ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, Blairo Maggi, que durante o evento se reuniu com o Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural da Nigéria, Audu Innocent Ogbeh. Por reciprocidade, o ministro brasileiro fala de um equilíbrio na balança comercial entre os dois países. Afina, o Brasil exporta menos de 1 bilhão de dólares para a Nigéria e importa mais de 9 bilhões de dólares.

“Na nossa pauta comercial com a Nigéria, o principal produto é o açúcar, mas há um grande potencial na área de carnes, material genético animal (sêmen e embriões) e bovinos vivos”, garante Odilson Ribeiro, secretário de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Audu Innocent Ogbeh diz que tem muito interesse em cooperação com o Brasil e que outras missões da Nigéria vão vir ao país em breve. O ministro ainda indicou interesse na aquisição de equipamentos brasileiros. Segundo ele, a Nigéria já tem uma encomenda de 50 mil tratores, além de silos e outros maquinários agrícolas.

 

A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA DE COMBATE À FOME

Muitos participantes do 4º Fórum Brasil África vieram conhecer as experiências do Brasil no uso da agricultura para erradicar a fome e promover o desenvolvimento de comunidades rurais. O evento mostrou algumas experiências exitosas nesse sentido. Uma delas é o programa de Alimentação Escolar, que começou no Brasil e que, através de uma cooperação triangular, está sendo executado no continente africano. “Os chefes de Estado africanos se reuniram e aprovaram que os programas de alimentação escolar são uma prioridade para os países. Isso já é um primeiro passo. Agora, a União Africana, o Banco Africano de Desenvolvimento e todas as entidades da África poderão unir esforços para ajudar os países a criarem e fortalecerem esses programas nacionais de alimentação escolar”, comemora Daniel Balaban, diretor do Centro de Excelência Contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos.

O trabalho do Fundo Internacional do Desenvolvimento Agrícola (FIDA) também foi destacado. O FIDA, que atua no Brasil por meio de operações de crédito externo, é o principal agente de desenvolvimento do nordeste brasileiro, entre os organismos internacionais que atuam no País. Com oito projetos sendo desenvolvidos simultaneamente, possui uma carteira de 640 milhões de dólares. “Até bem pouco tempo, até 2012, nós tínhamos um ou dois projetos em atuação. A expansão se deu não só na carteira e número de projetos, mas também na área de atuação”, explica Hardi Vieira, representante do Fundo no Brasil. “A gente acha que isso vai ser positivo para estimular a maior troca de experiências, de conhecimentos”, diz.

 

O PAPEL CENTRAL DO SETOR PRIVADO

O setor privado desempenha um papel central na transformação das economias nacionais da África. “Na África, ele representa 80% do total de produção,  do total de investimentos e ¾ do total de créditos. Enquanto a economia em boa parte do mundo tem vivido retrações, a África tem seguido outro caminho”, revela o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), Akinwumi Adesina, em um vídeo exibido durante a cerimônia de abertura.

Para Luiz Roberto Barcelos, Presidente da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), é tarefa do setor privado oferecer condições favoráveis de trabalho, respeitar o meio ambiente e investir em novas tecnologias de produção. “A motivação dos colaboradores é importante para melhorar a produtividade”, acredita.

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