CEO da Fundação Nelson Mandela, Sello Hatang conversa sobre a organização e a Exposição Mandela no Brasil em parceria com o Instituto Brasil África

Sello Hatang. Atual CEO da Fundação Nelson Mandela

Localizada em Johanesburgo, a Fundação Nelson Mandela foi criada em 1999 após seu fundador homônimo se retirar da presidência sul-africana. Nelson Mandela fez história ao se tornar o primeiro presidente sul-africano democraticamente eleito em sufrágio universal. Sua vitória pôs fim a um regime racista que dominou o país por quase 50 anos através do Apartheid.

  A organização é fruto da vontade de Mandela, cujo ímpeto era enfrentar problemas sociais que assolam a África do Sul e outras regiões. A instituição defende a promoção de ações e diálogos favoráveis à promoção dos direitos humanos, o incentivo à infraestrutura e a construção de ideias que contribuam para ajudar as populações mais vulneráveis a conquistarem os meios de uma vida digna. Acima de tudo, a Fundação considera vital a missão de conservar o legado de Nelson Mandela, mantendo viva sua memória e biografia. 

Para cumprir esta tarefa, a instituição criou a Exposição Mandela, um acervo dedicado à vida e obra do fundador. Circulando mundo afora, a exposição vai além de homenagear “Madiba”. A amostra de arte leva a mensagem de um ser humano em sua luta por justiça social e traz detalhes talvez desconhecidos da vida do primeiro presidente sul-africano democraticamente eleito. Além da exposição, foi criado em 2009, com a ajuda das Nações Unidas, o “Dia de Mandela”, estabelecido para 18 de julho, dia em que o líder sul-africano nasceu. Em 2012, Richard Mabaso, CEO da Ibumba Foundation, criou em parceria com a Fundação Nelson Mandela o “ Trek4Mandela”, que consiste em uma caminhada até o topo do Monte Kilimanjaro, a montanha mais alta da África, localizada na Tanzânia. A expedição acontece anualmente desde sua criação como forma de homenagear o legado de Nelson Mandela. O objetivo é chegar ao topo no dia oficial do “Mandela Day”

22 anos depois de seu surgimento, a instituição coleciona grandes conquistas e ampliou seu campo de atividades em várias frentes de trabalho. Sello Hatang, atual chefe-executivo da Fundação Nelson Mandela, assumiu a liderança da instituição em 2013. Em conversa com o portal Atlântico, ele dissertou um pouco sobre a África do Sul, Mandela e a expectativa da exposição no Brasil.  

Atlântico- Poderia dividir um pouco de sua trajetória e como foi sua chegada na Fundação Nelson Mandela?

Sello Hatang- Meu nome é Sello Hatang e minha jornada  se inicia em meu trabalho no governo como arquivista. Fui líder da Comissão de Direitos Humanos e também fui Diretor de Arquivamento Histórico Sul Africano (SAHA),onde dei suporte para a Comissão da Verdade e Reconciliação no setor de arquivos. Foi feito um trabalho bem interessante lá. Algo que devia ser resgatado em termos de arquivos nacionais. Estou na Fundação desde 2009 e comecei aqui como chefe do setor de comunicação. Fui apontado como CEO em 2013. Uma das grandes coisas em que participei mais recentemente foi a repatriação de namibianos que estavam na África do Sul devido a covid-19. 

Atlântico- Poderia falar um pouco o que tem feito a Fundação?

Sello Hatang- Aqui trabalhamos em diferentes frentes. Fornecemos suporte para a construção de hospitais, clínicas e outros tipos de unidades de saúde. Trabalhamos também através do diálogo. Já tivemos conversas, por exemplo, com o ex-presidente Obama, e a ex- presidente do Chile, Michelle Bachelet, que discursaram aqui em anos diferentes para o Mandela Day. Recentemente achamos algumas regiões do país prejudicadas por inundações. Então enquanto nós falamos aqui, a fundação e seus parceiros se unem em torno de planos para ajudar as comunidades atingidas através do fornecimento de casas, suprimentos e outras necessidades. É similar ao que fizemos quando a covid nos atingiu.  

Atlântico- Em relação a covid-19, a pandemia atingiu com mais força as nações emergentes. Como foi isso para a Fundação? 

Sello Hatang- Não tínhamos um plano para isso.  A covid chegou de surpresa e a Fundação Nelson Mandela decidiu ajudar com a doação de alimentos. Nós visitamos comunidades oferecendo suprimentos de comida e nos organizamos para dar suporte a pelo menos 100 mil pessoas. O projeto em questão se chama “ Each one, Feed one” e contou com um investimento inicial de 500.000 ZAR da Fundação Nelson Mandela. 

O auxílio alimentar foi de extrema importância para que as regiões mais vulneráveis pudessem ter mais fôlego para resistir à pressão causada pelo lockdown. Dois anos depois, tornou- se algo mais amplo. Este projeto foi alterado e de um suporte alimentar  passou a ser um projeto que garanta segurança alimentar de uma forma sustentável. Então agora estamos ajudando comunidades a conseguirem produzir seus “jardins alimentares” e serem auto suficientes em alimentos. Também demos um jeito de levantar fundos para prover máscaras e higienizador de mãos”.

Slogan da campanha “ Each One. Feed One” promovida pela Fundação Nelson Mandela no auge da pandemia

“O auxílio alimentar foi de extrema importância para que as regiões mais vulneráveis pudessem ter mais fôlego para resistir à pressão causada pelo lockdown.”

Atlântico- O que precisa ser feito para que a África consiga se desenvolver economicamente e de forma sustentável?

Sello Hatang- Eu acho que parte da solução é garantir que os governos partam para ações e não fiquem apenas no discurso. Que façam algo de fato pelo desenvolvimento sustentável. Aqui, assim como no Brasil, precisamos começar a ter a força de vontade política para fazer o trabalho difícil. Para alcançar o desenvolvimento sustentável, precisamos investir em educação. A alfabetização é um ponto importante que merece foco. Ainda, se nós lidarmos com o crime e a corrupção, estaremos melhores. Outro ponto é garantir que as pessoas entendam que o desenvolvimento de cada um não se trata apenas do progresso no presente, mas também sofre o futuro das gerações que ainda irão nascer.

 Então não devemos focar apenas em mim ou você, mas nas crianças de nossas crianças. O que eles irão achar quando estiverem aqui? Quando acharem o Brasil com muitas dívidas, quando acharem o brasil sem instalações e equipamentos adequados para cuidar de seu povo? Então desenvolvimento para mim, significa as pessoas entenderem que elas podem contribuir para este desenvolvimento. Mas os governos também devem lidar com crime, corrupção e outros elementos que impeçam esse progresso de acontecer.  O último ponto é a contribuição vinda de empresas. Elas poderiam ajudar com eletricidade, água, nutrição, saneamento básico e outros pontos que ajudam pessoas a viver com dignidade. O setor privado também precisa estar ciente de sua participação na equação. 

“Para alcançar o desenvolvimento sustentável, precisamos investir em educação. A alfabetização é um ponto importante que merece foco.”

Atlântico- Então a educação é chave para a mudança?

Sello Hatang- Educação é uma parte da solução para África se desenvolver. Mas não é o suficiente. Na África do Sul, por exemplo, há muitas pessoas com educação profissional e não há trabalho para essas pessoas. Ainda não possuímos uma economia que possa adotar seu próprio povo e ter mais pessoas inseridas no mercado de trabalho. Então a educação sozinha não é o suficiente. Precisamos de governantes que se importam, economias que abram oportunidades, uma democracia que se importa e ajude a agenda de desenvolvimento de seu povo. 

Atlântico- 22 anos depois do surgimento da Fundação e quase 10 da partida de Nelson Mandela, como você enxerga a África do Sul hoje? Há resquícios do apatheid?

Sello Hatang- O apartheid acabou, mas ainda há muito a ser feito para lidar com suas cicatrizes. Nosso sistema de educação continua entregue ao descaso. Nós temos feito o nosso melhor para tirar especialmente a população negra da linha de pobreza, mas ainda há muitos nessa situação. Então eu acho que ainda há muito a ser feito para lidar com o efeito do apartheid. O racismo é outro ponto. Muitas pessoas foram ensinadas a odiar a si mesmas porque ouviram a vida toda que são inferiores. E se nós iremos enfrentar estes desafios, não podemos negar a raiz destes problemas. 

“Não devemos focar apenas em mim ou você, mas nas crianças de nossas crianças. O que eles irão achar quando estiverem aqui?”

Da esquerda para direita, slogan do Dia Internacional de Mandela estabelecido em 18 de Julho de 2009 e slogan do projeto Trek4Mandela, fundado em 2012

Atlântico- Quais suas expectativas em relação a parceria com o Instituto Brasil África na criação de uma exposição sobre Nelson Mandela no Brasil?

Sello Hatang- Espalhar a história e legado de Nelson Mandela pelo Brasil. Assegurar que sua passagem pela Terra seja lembrada por muitos e não morra com ele. Nós sabemos que “Madiba” é profundamente amado no Brasil, e a exposição é uma maneira de firmar seu legado e até mostrar partes de sua história que talvez sejam desconhecidas. É também uma parte integrante da educação. Isso garante que pessoas como Nelson Mandela sejam vistas em salas de aula. A parceria firmada com o Instituto Brasil África foi essencial para a realização deste projeto que com certeza terá um desfecho positivo para todas as partes envolvidas. O Instituto é um grande aliado do continente africano e eu tenho certeza que haverão oportunidades de futuras parcerias.

“Espalhar a história e legado de Nelson Mandela pelo Brasil. Assegurar que sua passagem pela Terra seja lembrada por muitos e não morra com ele. “

Parte da Exposição Mandela de 2018 sediada no Centro Cultural Dragão do Mar. O evento contou com a participação de João Bosco Monte, presidente do Instituto Brasil África

Atlântico- O que podemos esperar no futuro em relação à Fundação? O senhor poderia falar sobre algum projeto a ser lançado ou em andamento? 

Sello Hatang- Temos dois projetos em andamento. Um deles é a exposição e no outro estamos mantendo nosso foco nas mudanças climáticas e igualdade racial. O que precisamos fazer de diferente? O que podemos fazer para evitar que a humanidade cause a própria destruição? Como podemos cuidar melhor dos recursos naturais concedidos pelo planeta? O outro está focado na Atlantic Fellows for Social and Economic Equity, um projeto que está sendo feito em parceria com os Estados Unidos com o objetivo de combater o racismo, por exemplo. E eu acredito que todas essas ações são formas de manter o legado de Nelson Mandela. Porque se trata de um legado que concede esperança e possibilita as pessoas sonharem com um mundo melhor, mais fraterno e unido. 

“Se trata de um legado que concede esperança e possibilita as pessoas sonharem com um mundo melhor, mais fraterno e unido. “