Capoeira: uma tecnologia social a serviço da paz

Goma, capital do província de Kivu do Norte, leste da República Democrática do Congo. No dia 23 de janeiro de 2016, vinte crianças, meninos e meninas com idade entre 8 e 16 anos, realizaram uma demonstração de capoeira. Entre a pequena plateia que acompanhava a apresentação, que durou cerca de cinco minutos, estava o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, que fazia naquele momento uma visita-relâmpago a um centro de transferência do Unicef. Há bem pouco tempo antes da ilustre visita, as mesmas crianças que brincavam capoeira na apresentação trabalhavam como soldados a serviço de grupos armados que atuam no País há décadas. Ban Ki-Moon queria conhecer de perto o trabalho do projeto “Capoeira Pela Paz”, criado pela Embaixada do Brasil em Kinshasa junto com alguns parceiros internacionais e que promove a capoeira como forma de resgatar a autoestima de ex-crianças-soldado.

Misto de dança, luta e música, a Capoeira surgiu no Brasil durante o século XVII entre os escravos trazidos da África. Na época, servia para que os escravos se socializassem e lembrassem de suas origens, em um contexto de total violação dos direitos humanos. Hoje, o gingado e a música têm sido usados como uma ferramenta psicossocial para fortalecer a resolução pacífica de conflitos, resistência e coesão social, reduzir a violência e combater as desigualdades de gênero em áreas afetadas pelo conflito. “Em uma área permanente de crise, onde as crianças estão expostas a horrores extremos de conflito armado, é importante dentificar uma abordagem inovadora que ajude a rejuvenescer o corpo, mente e alma da criança e que contribua para a reinserção social da criança antes do reagrupamento familiar e reintegração à comunidade, na sua”, afirma Pascal Villeneuve, representante da UNICEF na Republica Democrática do Congo.

Um trabalho complexo

As crianças são sequestradas pelos grupos armados e levadas para áreas distantes dos grandes centros urbanos onde passam por um treinamento para virar soldados. Enquanto os meninos aprendem a atirar e a lutar, as meninas são transformadas em escravas sexuais ou empregadas domésticas. Cada uma dessas crianças pode passar de meses a anos em trabalhos forçados dentro dessas “comunidades”. A desmobilização dessas crianças e a separação delas do grupo armado, ocorre basicamente de duas maneiras: quando elas conseguem fugir ou quando há uma ação militar, tanto das tropas da ONU como do exército congolês, contra o acampamento. Assim elas são recuperadas.

“Nas duas circunstâncias, as crianças chegam a algum vilarejo, contam a sua história e acabam sendo absolvidas pelo sistema das Nações Unidas ou do exército. Depois, terminam sendo transferidas para o que nós chamamos de Centros de Trânsito e Orientação”, detalha Paulo Uchôa. Um acordo entre o governo congolês e a ONU prevê que as crianças liberadas desses locais são colocadas sob a guarda do Unicef até que se encontre a família de cada uma delas. “Às vezes, quando esses grupos armados invadem os vilarejos, eles matam as famílias e as crianças ficam sem ninguém. Em outros casos, a criança é transferida para uma outra região do país”, diz. Em alguns casos, a criança não se lembra quem é e de que local foi sequestrada. A Capoeira é introduzida exatamente nesse período em que é feito um trabalho para identificar as origens de cada criança.

“Cada criança fica entre seis a doze semanas nestes centros de transferências. Portanto, temos pouco tempo e ainda assim os nossos objetivos são muito ambiciosos”, comemora o capoeirista mexicano Rafael Cabanillas, coordenador do projeto em Goma. “Como muitos dos capoeiristas da minha geração que não são do Brasil, descobri a capoeira graças ao filme Only the Strong e o videogame Tekken”, relembra. “No começo eu não sabia que a capoeira poderia ter tal importância cultural e social , pensei então que era apenas uma arte marcial como qualquer outra”.

Uma ideia simples e eficiente

O projeto Capoeira Pela Paz veio da mente de Paulo Uchoa, embaixador do Brasil na República Democrática do Congo. “Eu fiz capoeira na adolescência. Depois, já como diplomata no Líbano, fiz parte de um grupo de capoeira em Beirute. E quando estive em Nova York, não pratiquei capoeira, mas me envolvi do ponto de vista de financiamento e de recursos, para uma comunidade chamada Dance Brazil, de um capoeirista chamado Jelon Vieira, que também usava a capoeira integrada com dança contemporânea em contexto de crianças desfavorecidas e vulneráveis, no Brasil”, lembra. Ao chegar na República Democrática do Congo, o embaixador pensou em desenvolver uma iniciativa que pudesse, de alguma maneira, contribuir para mudar a realidade das crianças que vivem em áreas de conflitos armados.

A ideia surgiu em junho de 2013 durante um jantar com a princesa Carolina de Mônaco, que preside a AMADE Mondiale, uma associação que trata de assuntos ligados à infância, e com o general brasileiro Santos Cruz, que propôs uma ação diplomática que pudesse deixar um legado brasileiro. “Eu já tinha a ideia, mas não sabia como executá-la. Eu fui atrás do Unicef e falei sobre o projeto. Conversei com a representante deles, que já conhecia a capoeira porque um dos filhos dela já tinha praticado, e que viu o tema de maneira positiva”, conta. “Passamos a trabalhar juntos na montagem do programa, desenvolvendo um texto-base e avaliando a viabilidade. O projeto foi avançando e um ano depois dessa primeira conversa, em agosto de 2014, nós lançamos o projeto”.

Utilizar a capoeira como forma de fortalecimento das crianças em situação de vulnerabilidade social não é exclusividade do país africano. No Haiti desde 2008, o capoeirista brasileiro Flávio Saudade desenvolve uma atividade semelhante com crianças-soldado de Port-au-Prince. Natural de São Gonçalo, ele cresceu próximo à criminalidade, “ouvindo disparos de armas de fogo e vendo vizinhos serem vítimas da violência armada”, segundo conta.  Através de um projeto desenvolvido por uma ONG do Rio de Janeiro chamada Viva Rio, Flávio conseguiu terminar os estudos enquanto praticava capoeira. Lá aprendeu a desenvolver projetos sociais e assim, utilizar a capoeira como tecnologia social. Foi dessa forma que surgiu o projeto Gingando Pela Paz. O trabalho foi apresentado no Zimbábue e depois levado para a Alemanha, África do Sul, Espanha e Irlanda. “Comecei e não parei mais”, brinca. “No Haiti, começamos as atividades com 15 crianças desmobilizadas de grupos armados. Inicialmente, eu ia ficar apenas um ano. Mas acabei ficando mais de cinco”.

A experiência internacional de Flávio fez com que ele fosse convidado para dar consultoria no projeto Capoeira Pela Paz. “Apesar das diferenças entre o Haiti e a República Democrática do Congo, as crianças dos dois países apresentam em comum o fato de terem tido suas relações humanas dilaceradas pela violência”, acredita. Para ele, a capoeira é apenas a “espinha dorsal” do projeto, que vai muito mais além de um simples repasse de conhecimento.

A ideia cresce

Embora seja uma tecnologia social bastante eficaz no contexto de recuperação de crianças em situação de vulnerabilidade, um projeto com capoeira não é considerado dispendioso. “Depende do quão extenso ele vai ser”, argumenta Paulo Uchôa. Atualmente, o projeto está em fase de expansão. “O primeiro ano gerou resultados modestos, mas encorajadores”, resume o embaixador. Segundo ele, o segundo ano se manteve nas proporções do primeiro. Para o terceiro ano, que começa em agosto de 2016, o projeto recebeu dois aportes de recursos importantes: do Governo do Canadá, de 700 mil dólares, e do governo da Suíça, que doou 100 mil dólares.

Os recursos vão permitir a expansão do projeto para duas outras cidades e a contratação de novos profissionais locais. O embaixador brasileiro explica que, dos atuais oito funcionários que o projeto tem, seis são congoleses. “Os quatro monitores do projeto vêm, eles próprios, de situações onde foram crianças e adolescentes vulneráveis. Depois, se encantaram pela capoeira, começaram a praticar e se tornaram exímios capoeiristas. É uma ascensão social muito grande: de criança de rua em Kinshasa à funcionário das Nações Unidas”, comemora.

Todos iguais

“A Capoeira salvou minha vida”. O depoimento é do congolês Yannick Wouters, instrutor de Capoeira. “Ela me puxou para fora das vias de rua para me colocar no caminho certo. A vida que eu vivo hoje, eu devo à Capoeira”, completa. Yannick aprendeu o básico de Capoeira com Braz Augusto de Oliveira, um professor brasileiro oriundo de Bruxelas para um festival cultural em Kinshasa, capital do país africano. Depois disso, em fevereiro de 2006, criou a Associação Capoeira Congo para permitir que jovens congoleses, incluindo as crianças que vivem nas ruas, pudessem aprender capoeira. “Na família de capoeira, somos todos iguais”, defende Dieudonné Mosikikongo, um desses jovens. Batizado na Capoeira como “Ninja”, ele foi contratado junto com Wouters como monitor do projeto em Goma.

Outros países

A iniciativa também chamou a atenção da comunidade internacional. Alguns embaixadores brasileiros já tem procurado a embaixada em Kinshasa para avaliar a criação de projetos semelhantes em outros países. “É realmente um método original”, garante a congolesa Inah Kaloga, oficial de proteção da Unicef. “Nós também poderíamos ter usado a dança tradicional, mas que queríamos tentar algo novo aqui para despertar a curiosidade das crianças. Descobrimos que as crianças recém-chegadas se integraram mais facilmente no grupo porque a capoeira oferece espaços de intercâmbio que rompem as divisões étnicas e políticas herdadas dos grupos armados”.

Inclusão e justiça

Um estudo feito pela própria Unicef em 2015 revelou que cerca de 70% das crianças mostraram uma maior capacidade de expressar melhor as suas necessidades e sentimentos e 80% consideram a capoeira como uma excelente ferramenta para ajudá-los a administrar seu estresse e trauma. O texto conclui que a natureza inclusiva de Capoeira permitiu a participação de crianças com deficiência, ajudando a criar um clima de inclusão e justiça e também melhorando a qualidade da convivência entre crianças de diferentes grupos armados e etnias. Até agora, 868 crianças (156 meninas e 712 meninos) e 8 assistentes sociais foram beneficiadas por este projeto. Mas o número tende a crescer. Isso porque o projeto será estendido para outras áreas afetadas por conflitos armados na República Democrática do Congo.

Por Gustavo Augusto-Vieira

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