O Brasil vai à África e uma nova rota comercial está nascendo

Port of Banjul, Gâmbia (AfDB)

Até 2003, o Brasil tinha 18 embaixadas e apenas um consulado em território africano. Dez anos depois, o governo havia ampliado o número de representações diplomáticas em mais 19 embaixadas e um novo consulado, totalizando 39 representações diplomáticas no continente. Segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), neste mesmo período, o intercâmbio comercial entre o Brasil e os países da África saltou 410%. Entre 2004 e 2014, as exportações brasileiras para os países africanos cresceram 131%, com destaque para açúcar, carne bovina, carne de aves e cereais. Contudo, é possível potencializar ainda mais esse resultado. Para isso, governo e empresários precisam mapear as múltiplas possibilidades existentes.

Um dos setores que têm olhado com bons olhos para a África é o de fornecimento de máquinas agrícolas, especialmente porque empresas brasileiras receberam um grande incentivo para focarem suas vendas do outro lado do Atlântico. O programa Mais Alimentos, desenvolvimento pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, viabilizou exportações de máquinas agrícolas para países como Zimbabwe, Moçambique, Gana e Senegal. “É um mercado que está bem incipiente. Tem alguns países que estão começando uma agricultura mais mecanizada. Então é uma forma interessante de entrarmos lá”, avalia Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq (Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos).

O setor de máquinas e equipamentos se aproveita de um cenário extremamente positivo, destacando- se o protagonismo da área agrícola. Responsável por mais de 50% do total de postos de trabalho e por mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), na maioria dos países do continente africano, o segmento é um dos principais motores do crescimento da região. A FAO prevê um aumento de 80% na produção de alimentos até 2.050. “O Brasil já deu um passo importante e a gente pode fazer isso com a África. Vamos juntar forças e ter um papel muito importante de alimentar o mundo”, revela Luiz Cornacchioni, diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG). “A África não concorre com a gente, e nem a gente concorre com a África. Pelo contrário, esse é um jogo de ‘ganha ganha’, porque a demanda é muito grande”.

“Tem algumas coisas na África que estão evoluindo. Mas uma coisa é fundamental, que é a segurança jurídica”, aponta o diretor da Abag. “Criar um ambiente favorável, com normas, regulamentos e leis para atrair investimento. A África vem fazendo isso. Alguns países mais rápidos do que outros”.

“O interesse dos brasileiros tem aumentado em relação ao leste africano. Mas o empresário brasileiro precisa mudar e enxergar que tem muita coisa para ser feita por aqui”, afirma Marcos Brandalize, brasileiro que vive há duas décadas em Nairóbi, Quênia, à frente do grupo BrazAfric, que representa empresas brasileiras no leste do continente africano. “A era de introduzir produtos aqui já passou. A onda agora é de produtos manufaturados. Estou me preparando e tentando convencer nossos parceiros a colocar unidades de montagem e depois fabricar tudo aqui. Esse é o futuro”, adianta.

E é isso que a Positivo BGH vem fazendo. A empresa, uma joint venture entre a argentina BGH e a brasileira Positivo, maior fabricante de computadores e líder em tecnologias educacionais no Brasil, montou em Kigali, Ruanda, uma planta para avançar sobre o continente. A empresa assinou um contrato de cinco anos com o governo do País para fornecer 150 mil computadores por ano. O contrato, celebrado em novembro de 2014, resultou na abertura de uma fábrica, em julho de 2015. A unidade, que consumiu US$ 2,5 milhões em investimentos, ocupa uma área de 7.500 metros quadrados e tem capacidade para produzir 60.000 itens por mês. “Queremos ser a Cingapura da África”, brinca Miguel Stief, CEO da Positivo BGH. “A nossa estratégia é usar o know how da Positivo em educação e depois oferecer uma gama enorme de produtos para Ruanda e países vizinhos”, conta. A empresa ganhou, recentecemente, 33% de uma licitação para a instalação de smart classrooms (salas de aula inteligentes) em 20 mil escolas do Quênia. “Foi uma licitação que envolveu vinte consórcios. Disputamos com todas as grandes do mercado, como Lenovo e HP”, explica Stief. Segundo ele, o projeto é bem diferente do que está sendo feito em Ruanda, onde o governo apenas recebe os computadores.

“Nós temos que entregar toda a estrutura, desde tablets, computadores, projetores e equipamentos de rede até o treinamento de professores. É um projeto bastante complexo”. Sem entrar em detalhes, o executivo adianta que outros processos de licitação já estão a caminho, nas áreas de automação de processos. “Também já temos conversa no Quênia para oferecer outros tipos de produtos, como celulares e televisores”, comemora. “A gente olha a África com um mercado enorme que vai crescer ainda mais nos próximos anos. É preciso coragem, conhecer bem as culturas. Mas quem chegar primeiro, chega com vantagens”.

O PROTAGONISMO DE RESULTADOS

No total, o Itamaraty emprega 91 diplomatas em missão permanente e 6 em missão transitória na África, segundo dados de junho de 2016 do Ministério das Relações Exteriores. Hoje, a cooperação brasileira beneficia mais de 30 países da África,com um orçamento de cerca de US$ 57 milhões em projetos. A Agência Brasileira de Cooperação (ABC) coordena cerca de 150 iniciativas. Apesar de algumas delas ainda estarem no papel, países como Angola, Argélia, Benin, Cabo Verde, Guiné Bissau, Mali, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Senegal e Tanzânia são os principais beneficiados. Por enquanto, os países de língua portuguesa reúnem o maior número de projetos e orçamento quando comparados aos países das Áfricas francófona e anglófona somados.

O protagonismo brasileiro promoveu também uma maior interação entre países do Atlântico Sul e da África do Norte, que resultou, inclusive, em um acordo de livre comércio entre Mercosul e o Egito. Essa expansão também foi reforçada com o surgimento dos BRICS – grupo político de cooperação formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

O Brasil tornou-se referência em programas sociais e em projetos de cooperação técnica. Um desses projetos é o “Cotton-4”, que promove cooperação técnica brasileira no setor algodoeiro africano. Com o apoio técnico da Embrapa, o projeto atingiu expressivos resultados nos países beneficiários em sua primeira fase (Benin, Burkina Faso, Chade e Mali), ocupando uma posição estratégica na política de desenvolvimento e na redução da pobreza desses países.

(AfDB)

O programa que utiliza agricultura familiar para a merenda escolar – PAA Africa (Purchase from Africans for Africa)- foi “exportado” para Etiópia, Moçambique, Níger, Senegal e Malawi, em parceria com o PMA (Programa Mundial de Alimentos), a FAO (Organização da ONU para Alimentação e Agricultura) e o DFID (Departamento para Desenvolvimento Internacional do Reino Unido).

Outras iniciativas importantes foram a abertura de um escritório da Embrapa em Gana e a instalação de uma fábrica de medicamentos antirretrovirais em Moçambique. Uma outra consequência desse protagonismo do Brasil foi a nomeação de brasileiros para cargos importantes como a direção da FAO, comandada por José Graziano da Silva.

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