O Rio de Janeiro faz a África sonhar

 

Os jogos olímpicos e paralímpicos de 2016, que acontecerão no Rio de Janeiro tem um significado histórico. É que a distribuição geográfica das sedes escolhidas para o evento nunca foi homogênea. Será, por exemplo, a primeira vez que as disputas ocorrerão na América do Sul, significando que a edição de 2016 no Brasil abre um precedente para que a África também sonhe com a possibilidade de um dia sediar a competição.

Nunca o evento foi realizado no continente africano, apesar da experiência exitosa com a Copa do Mundo em 2010, na África do Sul, e da escolha de Durban para sediar os Jogos da Commonwealth em 2022. A busca pelo movimento olímpico se dá principalmente por conta do resultados positivos para um país-sede dos Jogos. “Quando uma cidade sedia um grande evento como esse, o mundo olha diretamente para ela e grandes oportunidades de crescimento podem surgir. O efeito é transformador”, afirma a atleta brasileira Shelda Bedê, medalhista de prata em duas edições dos jogos.

Os jogos do Rio fecham a chamada “Década do Esporte” no Brasil, um série de grandes eventos esportivos iniciada em 2007 com a realização dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro e que inclui os Jogos Mundiais Militares, disputados em 2011, a Copa das Confederações da FIFA, em 2013, a Copa do Mundo de Futebol, que aconteceu no ano de 2014, e a primeira edição dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, realizada em 2015 na cidade de Palmas, Tocantins.

4,8 bilhões de pessoas devem assistir aos Jogos Rio 2016.

Para tentar maximizar os benefícios econômicos e sociais desses grandes eventos, o governo brasileiro precisou desenvolver uma série de ações conjuntas. Uma dessas soluções foi a criação, em 2008, da Coordenação-Geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva (CGCE). O órgão, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores, busca promover uma maior interlocução entre setores governamentais e privados, nacionais e internacionais, envolvidos na organização desses megaeventos esportivos.

“Em linhas gerais, a criação da CGCE consagrou, em nossa política externa, o entendimento do esporte como um importante instrumento da diplomacia a serviço de uma Política Externa que projete positivamente a imagem do Brasil”, explica a embaixadora Vera Cíntia Alvarez, ministra da CGCE. “Como resultado, tivemos, a assinatura de mais de 50 Acordos de Cooperação Esportiva com os mais diversos países, como Angola, Benin, Burkina Faso, Guiné-Bissau, Irã e Moçambique, além de acordos de cooperação em matéria de megaeventos esportivos com países como África do Sul, Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido”.

GANHOS SOCIAIS E ECONÔMICOS

Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos constituem o principal evento esportivo do mundo e representam, ao mesmo tempo, desafios e oportunidades para o país-sede. No caso dos Jogos Rio 2016, previstos para o período de 5 a 21 de agosto, o Brasil receberá mais de 10 mil atletas, 25 mil jornalistas e profissionais de imprensa credenciados e 7 mil membros de Comitês Olímpicos Nacionais. Além disso, são esperados cerca de 350 mil turistas. “Em termos de imagem do Brasil no exterior, os ganhos potenciais são imensuráveis, mas também aumenta o desafio de organizarmos os Jogos com sucesso”, destaca Vera Cíntia Alvarez, da CGCE.

Porta de entrada para o movimento olímpico na América do Sul, a candidatura do Rio de Janeiro venceu países desenvolvidos e com larga tradição olímpica, como os Estados Unidos, representados pela cidade de Chicago – apoiada pelo presidente Barack Obama, o Japão, que propunha que os Jogos fossem realizados novamente em Tóquio, e a Espanha, que sediara com sucesso os Jogos de 1992, em Barcelona, e defendia a realização do evento em Madri, com o forte apoio do ex-Presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Juan Antonio Samaranch. “A vitória da candidatura brasileira representou, igualmente, o reconhecimento internacional da trajetória de suas décadas de avanços políticos e sociais do País, como a consolidação do regime democrático, o crescimento e a estabilidade da economia; o processo de inclusão social e a redução das desigualdades econômicas”, acredita Vera Cíntia Alvarez.

LIÇÃO DO RIO

Enquanto a África não vive o sonho olímpico, a experiência do Rio de Janeiro traz várias lições. “A grande lição que o Rio deixa é mostrar que cidades de países menos desenvolvidos que as grandes potências podem sediar os Jogos e aproveitá-los como uma oportunidade de transformação. Mostrar que é possível ser criativo e usar diferentes modelos de parceria com a iniciativa privada para investir na realização do evento sem onerar os cofres públicos além do desejável. Que é viável fazer obras dentro do custo programado, dentro do prazo previsto e com um planejamento que permita viabilizar o uso de diversas instalações esportivas após os Jogos”, garante o prefeito Eduardo Paes. “A realização dos Jogos na África seria uma grande conquista para a comunidade internacional e para o continente africano”, avalia a embaixadora Vera Cíntia, do CGCE.

ENTRE O ÔNUS E A OPORTUNIDADE

O simples fato de receber os Jogos não assegura ganhos automáticos para o país-sede, principalmente quando o evento acontece em uma nação em desenvolvimento, como o Brasil. “Graças à necessidade imposta pela realização dos Jogos, o Rio vive um período de profundas transformações, de implementação de projetos que, em alguns casos, estavam no papel havia décadas. Dois exemplos expressivos são os corredores exclusivos de ônibus (BRTs) e a revitalização da Região Portuária”, afirma Eduardo Paes, prefeito da cidade do Rio de Janeiro.

5 países africanos têm acordo de cooperação esportiva com o Brasil: Angola, Benin, Burkina Faso, Guiné-Bissau e Moçambique.

Os ganhos econômicos e sociais também são vinculados aos investimentos que um País faz com a realização de um evento como esse. No caso do Brasil, os Jogos do Rio já consumiram 39,07 bilhões de reais em investimentos. No entanto, segundo as autoridades, 57% dos recursos, ou seja, R$ 22,2 bilhões são oriundos da iniciativa privado. Os outros R$ 16,87 bilhões, o que equivale a 43% do orçamento, vem do poder público. “Consideramos que todos os projetos em andamento são desafiadores, porque nada pode dar errado. Se um deles não funcionar a contento, isso pode comprometer a avaliação do evento como um todo. Por essa razão, tratamos todos os compromissos assumidos com a mesma seriedade e dedicação”, avalia Joaquim Monteiro de Carvalho, presidente da Empresa Olímpica Municipal

UM CONTINENTE E UM SONHO

Todo esse movimento olímpico parece estar mais próximo do continente africano. “Temos o apoio do presidente do Comitê Olímpico Internacional para que a África apresente uma candidatura para 2028”, revela o marfinense Lassana Palenfo, presidente da Associação de Comitês Olímpicos Nacionais da África (ANOCA). Alguns países tem feito movimentos no sentido de fortalecer candidaturas na ÁFRICA.

África do Sul, Marrocos e Quênia (Nairóbi) tentaram, de certa forma, concorrer aos Jogos de 2024, mas já estão fora da disputa. A África do Sul, porém, tem vantagem competitiva nessa disputa por ter adquirido expertise ao receber dois eventos inéditos no continente, um dos quais já realizado com êxito reconhecido: a Copa do Mundo FIFA, em 2010, e os Jogos da Commonwealth em Durban, a ser realizado em 2022. “A nossa ideia é apresentar uma candidatura conjunta para que os Jogos possam ser realizados ao mesmo tempo na África do Sul e em outro país africano, mas com toda a África apoiando a candidatura”, adiantou Lassana Palenfo. “Argélia, Tunísia e Marrocos também podem combinar capacidade técnica e logística para apresentar um pedido”.

O EXCELENTE JEITO AFRICANO DE RECEBER

omo parte da estratégia de mostrar o potencial do continente, a Associação de Comitês Olímpicos da África (ANOCA) criou um espaço dentro dos Jogos Olímpicos chamado Casa da África, que começou em Londres 2012 e ganhará uma versão maior durante os jogos do Rio de Janeiro. “Queremos promover o nosso continente em suas diferentes facetas”, explica Lassana Palenfo, presidente da entidade.. “O projeto é uma janela para o mundo para promover oportunidades comerciais em diferentes níveis. O esporte é uma grande ferramenta para unir as pessoas e promover a paz em todo o mundo”, diz ele.

No Rio, a Casa da África vai servir como um hub voltado para a difusão de negócios, turismo e parcerias estratégicas. Uma outra estratégia é conhecer a experiência do Brasil mais de perto. “Durante uma missão de trabalho que fizemos em Brasília no início de fevereiro, tivemos discussões muito frutuosas com funcionários do Ministério dos Esportes. Nós concordamos em aprofundar a nossa cooperação em termos mutuamente vantajosas”, adianta Palenfo.

O embaixador do Projeto Casa da África no Brasil, João Gilberto Vaz, adianta que o espaço, que está sendo instalado entre 1º e 21 de agosto no Casa Shopping na Barra da Tijuca, terá 2.500 metros quadrados, distribuídos em cerca de 20 estandes para os Comitês Olímpicos dos países africanos, local para até quinze empresas africanas, brasileiras e de outros países com interesse na África, uma área VIP para até 150 convidados, além de um lounge presidencial para 30 pessoas, para receber os chefes de Estado. “Será a maior casa de hospitalidade durante os Jogos Olímpicos”, garante.

Em média, estima-se que 1.000 pessoas devam passar por dia no lugar. “Teremos o melhor do continente: cultura, culinária, música, moda, além de espaço para promoção de negócios”, conta o embaixador João Gilberto Vaz, acrescentando que “a entrada da Casa terá um formato de um checkin de aeroporto para proporcionar aos visitantes a experiência de uma verdadeira viagem à Africa”.

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