Perspectiva: o Brasil(mais uma vez) na FAO

José Graziano (FAO)

Reeleito para novo mandato de quatro anos, o brasileiro José Graziano da Silva, 65, manterá até 2018 sua posição como diretor-geral da FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. Eleito pela primeira vez em junho de 2011, Graziano é o primeiro latino-americano a ocupar o cargo desde a criação da organização, em 1945. ATLANTICO conversou sobre o assunto com o pesquisador da Embrapa Márcio Carvalho Marques Porto, que falou sobre a relevância dessa reeleição para o Brasil e para os países da África.

Para ele, o fato de nenhum país além do Brasil ter apresentado outro candidato já indica um forte interesse da comunidade internacional para que a gestão de Graziano continue, por conta de uma boa avaliação da primeira gestão. Considerando que ele teve somente três anos e meio para exercer o primeiro mandato, por uma questão de defasagem entre eleição e posse, sabemos que, para uma Organização como a FAO (onde as decisões devem ser tomadas por consenso), obediente a normas próprias, das Nações Unidas e de seus quase 200 países membros, uma gestão de quatro anos é insuficiente para mostrar resultados”, explica.

No entanto, já se pode observar mudanças estratégicas e operacionais no modo de agir da organização. “Graziano começou fazendo uma reestruturação na estrutura da FAO, priorizando a Cooperação Técnica, o apoio aos países mais carentes de alimentos e recursos, com base em indicadores tais como o Índice de Desenvolvimento Humano. Revisou certos benefícios e privilégios dos empregados da FAO, começando por ele mesmo, adotando uma política de austeridade. Também deixou claro que o impacto das ações da FAO deve ser sentir no campo, pelo aumento da produção, produtividade e qualidade dos alimentos, apesar de manter ações importantes na área da difusão de conhecimentos e estatísticas, área que a Organização tem clara vantagem comparativa”. Porto também ressalta a larga experiência de Graziano. “A América Latina, como exportadora líquida de alimentos para o mundo, e o Brasil, como gigante agrícola e pecuário, mereciam ser lideradas por um executivo do porte de Graziano. Além disso, a experiência dele como acadêmico e ministro de Estado o habilita a propor alternativas para a erradicação da fome no mundo. Seu Programa Fome Zero, apesar de ter causado acirradas discussões internas, a nível de Brasil, indubitavelmente reduziu a pobreza extrema e a fome no nosso país. Tais resultados, que sem duvida contribuíram para a sua reeleição, também serviram de base para o estabelecimento de uma estratégia de ação que prioriza o agricultor familiar, grande responsável pela produção de alimentos no mundo em desenvolvimento”.

O pesquisador também destaca o que o continente africano tem a ganhar com a reeleição de Graziano. “O Dr. Graziano já expressou e demonstra, com as suas ações, que a África deve ser a prioridade para a FAO. Me recordo de ter ouvido dele que ‘a África é tudo para nós’, expressão que reflete a prioridade da FAO – e das Nações Unidas como um todo-para aquele continente. A determinação de atacar os problemas africanos e a sua experiência no desenho do programa Fome Zero contribuíram para que o diretor-geral recebesse o apoio praticamente unânime dos países africanos a sua reeleição. Os países africanos membros da FAO reconhecem que a prioridade em relação a África é genuína, como tem sido demonstrado pelas ações da FAO nos últimos três anos e meio”, avalia.

 

JOSÉ GRAZIANO DA SILVA

Agrônomo graduado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP e doutorado pela Unicamp, José Graziano da Silva é autor de estudos sobre a questão agrária no Brasil. Entre 2003 e 2004, atuou no gabinete do então presidente Lula como ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, sendo considerado ‘pai’ do Programa Fome Zero.

 

NOVOS E VELHOS DESAFIOS

Na nova gestão, Graziano enfretará problemas já existentes como a contenção da alta do preço dos alimentos além de se preocupar com questões ambientais, como o uso sustentável da água e de outros recursos naturais. “A globalização elevou o preço das commodities a nível da especulação financeira em 2008, como resultado da crise financeira internacional, uma vez que, por uma combinação de fatores, investir em commodities agrícolas mostrou-se um bom destino para países, empresas e fundos. Adversidades climáticas contribuíram para uma queda na oferta de alimentos, o que resultou em um ascenso sem precedentes dos preços dos alimentos e, pior, uma retração na oferta. O desafio, para o mundo globalizado, é garantir níveis de produção e produtividade adequados nos países pobres, de ingresso médio e alto, para que o balanço entre oferta e demanda se mantenha estável. Inúmeros outros desafios estão presentes, como por exemplo o tema ‘água’ e o uso sustentável dos recursos naturais, os quais, pela sua importância, causam problemas a população mundial e mesmo conflitos entre países”, aponta Márcio Porto.

 

A PARTICIPAÇÃO PRIVADA

O pesquisador da Embrapa, Márcio Porto, destaca que a FAO considera o setor privado um importante ator na produção de alimentos in natura e industrializados. “A nível global, busca e firma parcerias com diversas entidades representativas do setor, produz séries de dados de extrema importância para a tomada de decisões pelos seus usuários, sejam eles agricultores individuais ou organizações representativas do setor privado”, diz ele. No Brasil e na maioria dos países africanos, acrescenta, “as representações da FAO se encarregam de estabelecer contatos locais e estimular o uso das informações geradas pela Organização para a produção de alimentos. Todas as politicas estabelecidas ou adotadas pela FAO, juntamente com governos, se destinam a incentivar a produção de alimentos”.

 

MÁRCIO CARVALHO MARQUES PORTO

Márcio Porto é um fisiologista de plantas e se juntou à Embrapa em 1974. Ele passou sete anos com o CGIAR (Consultative Group on International Agricultural Research), em Ibadan, Nigéria e mais tarde com o IITA (International Institute of Tropical Agriculture, como o Engenheiro Agrônomo. Coordenou em Maputo, Moçambique, uma pesquisa que envolveu 11 países africanos. Mais recentemente, Dr. Porto trabalhou para a FAO. Foi representante Regional Adjunto para América Latina e Caribe, representante da FAO no Chile e também representante da organização em Cuba. Em Roma, atuou na FAO como o chefe da divisão de Colheita e Pastagem .

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