Testemunho ao primeiro acusado

Poesia escrita em homenagem a Nelson Mandela.

Se vivo, este que foi um dos maiores líderes do planeta estaria completando 101 anos.

Eu sei que Patrice Lumumba morrera havia um tempo,
e Sylvanus Olympio recentemente, apesar de eu não saber bem o motivo,
Tento me reconectar com minha mente de criança
e com as memórias dos eventos que se emaranham dentro dela -
Um conhecimento de nosso mundo distante montado peça a peça
através de conversas escutadas sem querer, e de vozes no rádio.

Em 1962, o mundo era um lugar muito diferente.

Eu não sabia onde ficava Montgomery, 
mas aprendi o significado de boicote. 
Não entendia o Mau-Mau,
exceto que me ensinou o impacto das mentiras, 
e o quanto custam as liberdades. 
Me lembro do teu nome, e de uma conversa vaga sobre um julgamento
e de traição ser algo muito sério; 
Sisulu e Mbeki, Goldberg e Mhlaba, 
Kathrada, Motsoaledi e Mlangeni em Rivônia.
Esses nomes eu aprendi ao longo dos anos,
Mas, daquela época, o que realmente me lembro 
É do segundo ouro olímpico de Abebe Bikila, 
E Cassius Clay provando que era o maior, 
Na época em que fizeste teu discurso 
E desapareceste.

Não te vimos desde então. 

Não marquei teu quinquagésimo aniversário: 
Mas, em Gana, J. B. Danquah já estava morto, 
E já havíamos passado por golpes e contra golpes 
No começo de uma segunda república.
Enquanto Baldwin nos alertou sobre Da Próxima Vez, o Fogo,
Os rodesianos brancos proclamaram DUI,
E os zimbabuanos se prepararam para a guerra.
Mas já matávamos nossos irmãos no Biafra
Enquanto o mundo assistia, 
E um jovem Christopher Okigbo nos lembrava 
Que até mesmo os poetas estavam morrendo. 
E ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre

Apesar de James Brown ter nos tirado das ruas com a dança
E do festival "Soul to Soul'' em Gana,
Ninguém se lembrou de Paul Robeson, e
Mahalia Jackson cantou sua última canção.
Cantando "We Shall Overcome"
Entre frustrados Freedom Summers, deixamos o
Mississippi, Watts e Newark queimar -
E Medgar, Malcolm, e Martin, mortos. Todos mortos.
E ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

Em um mundo raivoso e solitário, 
Nós marcamos a passagem de seu décimo ano
Lendo Cartas a Martha e Soledad Brother.
Vivíamos com nossas Almas no Gelo 
Quando Arthur Nortje  se matou em uma sala de Oxford,
E Kabaka  morreu exilado.
Libertamos Angela Davis  mas, em tua ilha desolada,
Ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

Seu sexagésimo aniversário nos lembrou
que “Essa Luta era a Tua Vida”
Mas, naquele momento, tua vida se tornara nossa luta, 
Enquanto enterrávamos Hector Petersen 
E uma centena de crianças massacradas
Nas ruas calcinadas de Soweto.
Com Thandi Modisi  preso,
Demos “Um Grito de Liberdade”  por Stephen Biko assassinado; 
Pessoas jovens o bastante para serem teus filhos,
E crianças mais jovens que teus filhos mortas,
Tantas delas mortas,
Ainda assim, pelo menos estavas vivo,
Mas ainda não eras livre.

Bradamos FRELIMO e outro império caiu. 
Antonio Jacinto "Sobreviveu em Tarrafal" ,
Mas Agostinho Neto estava morto. 
Eduardo Mondlane tinha sido assassinado havia muitos anos,
E desde então guardamos luto pelo acidente de Samora Machel 
 
No lado sul-africano das montanhas de Moçambique.
Mas ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

Por volta do teu vigésimo ano,
Anwar Sadat  abriu um processo pela paz no Knesset,
E foi, mais tarde, morto por suas penas.
E Haile Selassie, o leão de Judá, desaparecera
Deixando nenhum memorial, exceto um reino imperial
de três mil anos, agora em guerra por décadas a fio.
E na Eritreia, em Tigré, no Sudão, no Saara Espanhol 
A “Colheita dos nossos Sonhos” “Colheu uma Tempestade” de pesadelos.
E procuramos por Janani Luwum  entre os mártires de Kampala.
Marley , que cantou por Manley  e Mugabe , estava morto, tão jovem.
Mas ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

As décadas trazem mortes de líderes,
O poder e o mito que foi Nkrumah 
Se despedaçou como sua estátua destruída
Nas ruas de Acra.
E na mesma semana em que Jomo Kenyatta 
Encarou seu sagrado Monte Quênia pela última vez,
Kofi Busia  terminava seu “Desafio por uma África em Busca da Democracia”.
Todos os teus companheiros mortos.
Mas ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

Ainda assim, em um continente sendo “liberado”, “redimido”, “revolucionado”,
Proclamando "Uhuru", as pessoas marchavam;
Vinte e cinco anos após Sharpeville, nós marchamos,
Dez anos após Soweto, nós marchamos,
E quando mataram mães e bebês
Em sua marcha por Mamelodi,
Ainda, com elas, marchamos.
Porque ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

Quando alcançamos teu septuagésimo aniversário,
Outra geração de crianças
Aprendera a chamar teu nome.
Carregávamos velhas imagens de teu rosto em nossos corações
E nas costas de nossas camisetas,
Como um ícone de um novo dia.
O príncipe guerreiro Tembu, o advogado-ativista,
O prisioneiro.
No mundo todo marchávamos aos milhões,
Exigindo seu retorno a este mundo conturbado
Tão lamentavelmente desprovido de heróis
Porque ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

Desapareceste da nossa vista
Em um mundo que não tinha dado um pequeno passo para o homem na lua;
Sem Apollos, sem Challengers, sem Salyuts,
Sem fotografias dos planetas mais longínquos, sem caminhadas no espaço.
Os pequenos passos dados na Terra para a humanidade não incluíram
Os shows “Flower Power Love” em Woodstock,
Os shows “One Love Peace” em Kingston, Jamaica,
Os shows “Artists United Against Apartheid” em Sun City,
O show Band Aid, proclamando “We are the World.
Esse mundo não viveu a “Revolução Cultural” da China,
Não teve tropas americanas destacadas no Vietnã,
Não teve os “Campos da Morte” no Camboja,
Não teve um Prisioneiro Sem Nome  
em uma Cela sem Número desaparecido, lamentado pelas
Mães da Praça de Maio.
E, em meio a isso tudo,
Ainda estavas vivo,
E ainda não eras livre.

E agora, é o Dia do Senhor, onze de fevereiro de 1990 ,
São cinco da manhã em Nova Iorque e em Kingston, Jamaica,
É uma da tarde em Estocolmo , Londres e Acra, Gana.
E metade do mundo que marcha pausou –
Mantendo vigília.
Pois são três da tarde na Cidade do Cabo, África do Sul,
E esperamos para ver o teu rosto.


Após vinte e sete anos de luta, marcha e canto,
Mantemos uma vigilância de noventa minutos;
Para ver-te dar os próximos passos
Da tua Longa Caminhada
Até a nossa Liberdade incerta
Para testemunharmos tua libertação para este mundo em constante mudança
Que não deixa de ser o mesmo.
Porque ainda estás vivo,
Mas ainda não somos livres.
Amandla Mandela
A Luta Continua.

LEIA TAMBÉM: Mandela Icônico, por Abena Busia

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