Wanderson Petrova: “O amor conquista tudo”

Criada em 2006 pela popstar Madonna, a  ONG Raising Malawi já ajudou mais de 5.600 crianças com a construção de escolas, creches, centros de saúde e programas de prevenção de doenças. Em 2017, a organização decidiu criar na cidade de Blantyre um hospital chamado The Mercy James Institute for Pediatric Surgery and Intensive Care (MJIPSIC).

A inauguração teve a contribuição do artista cearense Wanderson Petrova. Fã de Madonna, ele foi descoberto por ela através das redes sociais e levado para o Malawi para colocar uma de suas obras de grafite em um mural do hospital. 


À ATLANTICO ele conta como a experiência foi importante para sua formação pessoal e profissional. Também conta como a partir dessa viagem ele aprendeu mais sobre as maneiras que sua arte poderia trazer mudanças sociais para sua comunidade. Petrova também destaca sua  relação com o Malawi e suas pretensões de voltar ao país.

ATLANTICO – Como aconteceu o convite para ir ao Malawi?

Wanderson Petrova – Minha relação com a Madonna veio se estreitando depois que ela tomou consciência de um grafite que fiz na minha cidade [Crato] inspirado  pela poética de um vídeo dela, chamado “Ghost Town”. Ele reproduziu meu grafite em todas as suas redes sociais. Depois de um ano do primeiro post veio o segundo. Ela acabou gostando de mais uma obra minha, me marcou no Instagram e escreveu “ realmente o amor conquista tudo”. E isso veio se estreitando. E aí o Raising Malawi acabou me convidou para pintar murais dentro do Mercy James. A própria Madonna escolheu uma das artes do meu portfólio onde eu uso paisagens e vou misturando o surreal com elementos mais figurativos. Ela acabou escolhendo uma floresta azul com alguns pássaros.

ATLANTICO – Como foi sua relação com a Madonna durante o processo de desenvolvimento do mural?

WP  – A própria Madonna direciona tudo, ela é muito atuante nesse aspecto. Ela acompanhou todo o processo de construção do mural, até a pigmentação da cor. Ela fazia uma espécie também de curadoria. Por várias vezes, eram mandadas as fotografias de andamento do mural e ela ia dizendo: “eu gostei muito desse tom de azul. Eu quero que você o mantenha”. Ela queria que a pintura fosse reproduzida tal qual havia sido feita antes, inclusive as proporções. 

ATLANTICO – Como foi a experiência lá no Malawi?

WP – A experiência foi maravilhosa. É curioso como nesse mundo pós-moderno as pessoas se utilizam do avanço da internet para aproximar suas ações. Para tornar as coisas possíveis, para tornar laços mais estreitos. Então foi muito desafiador pra mim.  Imagina, você passa uma vida inteira como fã, comprando a arte do seu artista preferido. E de repente, esse artista precisa da tua arte, te convoca, quer sua arte também. Também me questionei sobre como a arte, uma pintura, algo tão subjetivo, pode acolher acolhida visualmente crianças com tamanha vulnerabilidade social. Então eu entendi melhor a força do meu trabalho dentro de um eixo social. Foi a partir dessa experiência no Malawi que eu entendi que eu também poderia ajudar as pessoas na minha comunidade.  Hoje eu atuo em unidades para meninos que crumpem medidas socioeducativas. Eu coloco a arte enquanto reparação e auto-reflexão. Isso só foi possível diante dessa experiência com o Malawi. 


ATLANTICO – Nesses 20 dias que você ficou lá, você conheceu os outros artistas que participaram do projeto. Tinham outros brasileiros?

WP – Eu conheci o John que trabalha com arte há mais tempo lá. Ele faz um trabalho social bem interessante com os adolescentes órfãos do Jacaranda School. No momento que eu estava não tinha nenhum outro brasileiro. Mas eu soube que a Madonna chamou o Eduardo Kobra também. Então fomos dois brasileiros que pintaram o hospital: eu e o Eduardo Kobra. 

ATLANTICO – Como a sua relação com o continente africano mudou após essa experiência? Qual sua visão da África a nível pessoal e profissional hoje?

WP – Não consigo desassociar hoje a relação de nível pessoal e profissional. Está tão misturado e tão presente em mim depois dessa experiência que uma das coisas que eu absorvi é essa relação de resistência. Não importa o problema nem a vulnerabilidade na África, porque que eles vão estar com um sorriso, eles vão resistir, vão achar uma forma. Não sei, é uma força. Uma relação de força e de garra. E eu bebi muito disso, sabe?. O hospital ainda estava em processo de construção. Então haviam mulheres, e homens trabalhando naquilo. Pessoas que depois também seriam atendidas lá. Isso foi muito inspirador. 

ATLANTICO – Você pretende voltar lá?

WP – Com toda certeza. Estou me organizando pra isso. 

ATLANTICO – Quais seus planos para o futuro? 

WP – Quero continuar pintando alguns espaços junto as crianças e trazendo uma acolhida pras pessoas. Uma acolhida visual, um ponto de fuga, essa mesma relação ao qual eu colaborei com a Madonna. Eu queria que ela se expandisse, e também lá. E seria isso que eu posso falar.

O Malawi é nação situada entre a Zâmbia, a Tanzânia e Moçambique na África subsaariana central. Um dos países mais densamente povoados do continente, é o lar de mais de 16 milhões de pessoas cuja principal fonte de subsistência é a agricultura.

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