Olhar para a África significa olhar para o futuro. O continente é casa de nações com desejo de se modernizarem. Foi pensando nisso que o governo da Nigéria procurou o Brasil para desenvolver o maior projeto agropecuário já visto em seu  território. Com plano desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e financiamento inicial superior a 1 bilhão de dólares divididos entre o BNDES e o Deutsche Bank, o programa, que recebeu o nome “Green Imperative” por conta de sua grandiosidade vai tentar envolver todos pontos da cadeia produtiva da Nigéria.

Discutido ao longo dos últimos anos, o acordo foi assinado no mês de janeiro em Abuja, com a presença do vice-presidente do país, além de ministros e governadores estaduais. Pela delegação brasileira estavam presentes o embaixador do Brasil na Nigéria, Ricardo Guerra de Araújo, e representantes da FGV e da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), além de outros grupos de empresários.

Cerimônia de lançamento do projeto foi em janeiro, na cidade de Abuja

Em um primeiro momento, o projeto prevê a exportação de 10 mil tratores e 50 mil máquinas e equipamentos do Brasil para serem montados no continente africano. Estimativas da FGV apontam para a criação de 100 mil empregos diretos e mais de 5 milhões indiretos em médio prazo.

O Ministro de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Nigéria, Audu Ogbeh, participou do Fórum Brasil África em 2016

 A iniciativa conta com um plano de negócios que também prevê a criação de mais de 700 centros de serviços na Nigéria, cuja função será a de apoiar os pequenos agricultores  ao longo de toda cadeia produtiva agrícola, do cultivo à venda do produto no mercado. Estes serão especializados de acordo com as cadeias de valor no setor agrícola: frangos, carne bovina e cordeiro, frutas, laticínios, hortifrutis, tubérculos, óleo de palma, coco, cacau, cereais (soja, milho e arroz) e algodão.

“O fato de sermos países em desenvolvimento e acreditarmos na importância e na eficiência da Cooperação Sul-Sul também favoreceu o desenvolvimento dessa parceria. Brasil e Nigéria possuem o mesmo tipo de solo (cerrado, no Brasil, e savana, na Nigéria) e o mesmo clima tropical com todas as oportunidades e desafios que esses fatores geográficos impõem aos dois países.  Nesse contexto, acredito que a longa e bem sucedida experiência brasileira na área de agronegócios poderá eventualmente servir como modelo para o desenvolvimento de outras parcerias no continente africano”, explica o embaixador Ricardo Guerra de Araújo.

Brasil e Nigéria possuem o mesmo tipo de solo e o mesmo clima tropical com todas as oportunidades e desafios que esses fatores geográficos impõem aos dois países

Além do financiamento ficar a cargo do Deutsche Bank e BNDES, com seguro de crédito do Banco Islâmico de Desenvolvimento e da Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias (ABGF), ainda está a ser definida uma parceria com uma instituição financeira multilateral.  Os financiamentos terão garantia soberana do governo da Nigéria e o pagamento será feito em 15 anos, com três de carência.

Em pronunciamento feito após o lançamento do projeto, o vice-presidente nigeriano, Yemi Osibajo, classificou o Green Imperative como um game changer. “Não podemos tirar nossa nação da pobreza sem investimento na agricultura. Os jovens não precisam apenas ser alimentados, mas também empregados. Eles querem empregos dignos com salários decentes”, afirmou.

Blairo Maggi, antigo ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com Audu Ogbeh no Fórum Brasil África

A ABIMAQ diz esperar ter um papel ativo no projeto, que possa gerar resultados para a indústria de máquinas e equipamentos brasileira e todo o desenvolvimento agrícola e industrial nigeriano.

“Temos feito um esforço para acompanhar de perto os desdobramentos do Projeto, uma vez que um de seus focos contempla a exportação de máquinas e equipamentos brasileiros. Trata-se de um projeto de grande importância para as relações Nigéria-Brasil, podendo ser considerado como um marco na parceria entre o país mais populoso e maior PIB do continente africano e o país mais populoso e maior PIB da América Latina”, disse a Associação em nota à ATLANTICO.

Para o embaixador brasileiro em Abuja, outra expectativa decorrente do desenvolvimento do Green Imperative é a melhora na balança comercial brasileira, na medida que possibilitará maior equilíbrio no intercâmbio bilateral com a Nigéria, que, embora já tenha figurado entre os 15 maiores parceiros comerciais do Brasil, entre 2007 e 2014, o saldo comercial negativo brasileiro chegou a acumular perto de 50 bilhões com a nação africana.

“O governo deste país tem procurado implementar, nos últimos anos,  políticas de diversificação econômica visando a desenvolver o setor agrícola para melhorar a segurança alimentar e a diminuir a dependência histórica do petróleo e do gás natural”, explica o embaixador. Ricardo Guerra ainda ressalta que estimativas colocam a Nigéria como 3ª nação mais populosa do mundo em 2040, e que, assim, a questão da autossuficiência alimentar será fundamental para o futuro do país.    

“A Nigéria é um grande mercado em desenvolvimento, com uma classe média em plena expansão. É verdade que o país enfrenta grandes desafios de infraestrutura, principalmente nos setores de energia e transportes, mas possui também  um potencial de crescimento econômico significativo, assim como outros países africanos. É impossível pensar no futuro sem considerar a África como um continente de grandes desafios e variadas e importantes oportunidades de negócios.  Estou convencido de que o Brasil tem todas as condições de competir no setor de agronegócio com outros grandes atores presentes no continente africano”, finaliza.

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