FOTO Brunno Rogger

Os cabelos constam entre os principais elementos de expressão da personalidade humana. As colorações, cortes e penteados transmitem mensagens simbólicas inerentes às individualidades. Contudo, historicamente, pessoas negras nem sempre têm sido protagonistas do bilionário mercado de haircare, realidade que vem sendo mudada aos poucos. Seja pelo movimento da indústria de cosméticos, que passou a enxergar esse público com outros olhos, seja pelos próprios consumidores, que buscam alternativas mais interessantes para melhorar a autoestima. “Nós vivemos a era da personalização e, hoje, as mulheres buscam um visual que se adeque ao tipo de rosto, personalidade, cabelo e estilo. A busca de cabelos ondulados, cacheados ou crespos, aumentou consideravelmente, pois as pessoas querem expressar sua identidade, atitude e origem”, afirma o cabeleireiro Fernando Paolo, um dos mais respeitados experts em beleza do Brasil. “Padrões de beleza não são mais vistos como regras. Por isso, as mulheres desejam ter os cabelos bem tratados, qualidade de fio, liberdade de ter o tipo de ondulação original, sem que esteja presa a uma única forma”.

O cabelo africano tem suas particularidades: é mais frágil do que o cabelo caucasiano, cresce mais lentamente e requer cuidados específicos. Perucas e tranças dão estilo e exigem pouca manutenção. Mas ao longo dos anos, o uso excessivo de algumas técnicas e de alguns produtos, como alisamentos e relaxantes, pode trazer sérios danos e até calvície. “Com mais de vinte anos de uso de todo tipos de extensões capilares, tive uma perda considerável de cabelo pelo uso inadequado dessas técnicas. Foi um momento muito difícil pra mim. Comecei uma pesquisa sobre como as grandes artistas americanas mantinham aquelas madeixas tão perfeitas. Então, encontrei a resposta que mudou minha história: lace wig”, lembra Carla Leão, empresária de 38 anos que transformou uma necessidade em negócio. Natural de Salvador, hoje é conhecida como Mona Babumbursema, vive em Barcelona, onde administra as vendas de lace wigs, perucas sintéticas importadas dos Estados Unidos, usadas por grandes estrelas internacionais como Rihanna, Beyoncé, Lady Gaga e Naomi Campbell. “As wigs mexem de forma extraordinária na auto estima da mulher. Elas se sentem mais fortes e mais poderosas por ter um cabelo perfeito. Isso faz com que outros aspectos fiquem latentes. Começam a se maquiar mais, a ousar nas roupas e consequentemente isso reflete na vida de cada uma”, acredita. Entre as clientes, a grande maioria (70%, segundo ela) é formada por mulheres que vivem no Brasil. Em seguida vêm as brasileiras e as africanas que vivem na Europa. “As europeias ainda vinculam as wigs a doenças como o câncer e isso dificulta a inserção”, revela.

O sucesso das perucas se deve ao custo reduzido e também à facilidade de colocação, que não requer um profissional. “É um produto barato. O modelo mais caro chega a R$ 600 (US$193,84). O cabelo natural pode respirar, é um material sintético. “E não é igual à peruca de carnaval, ela imita o cabelo humano”, explica a empresária Letícia Korndorfer, proprietária da Tress Cabelos. Depois de morar cinco anos no continente africano, entre Cameroun e Angola, Letícia notou uma diferença na autoestima entre brasileiras e africanas. As mulheres negras no Brasil, segundo ela, possuem mais baixa autoestima. Isso motivou Letícia a criar um salão de beleza, em Uberlândia, Minas Gerais, destinado ao público negro para o tratamento de cabelos crespos. “Procurei cursos sobre esse tipo de cabelo e não encontrei nada relacionado. Resolvi ir para os Estados Unidos onde fiz um curso de quatro meses em uma escola sobre cabelos crespos. Mas, o mercado estadunidense não trabalha com tratamento, mas com perucas”, conta. “Diferente do Brasil onde as mulheres são mais ligadas em apliques, megahairs e tratamentos de alisamento.

Então, ela conheceu uma distribuidora especializada em perucas afro que mostrou a Letícia que o mercado brasileiro era promissor por ter demanda e carência de produtos. Assim, a Tress Cabelos se tornou a distribuidora exclusiva das perucas norte americanas em território brasileiro. Com contrato fechado em 2014, as vendas começaram em fevereiro de 2015. O lucro inicial foi de R$ 9 mil reais ao mês. Hoje a empresa fatura R$ 100 mil ao mês, vendendo principalmente pela internet. “E esse mercado só vai crescer, não há dúvida”, aposta. De fato, o Brasil é o segundo maior mercado consumidor de produtos para cabelo no mundo, com 12% do market share.

Dados do Laboratório de Cosmetologia, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo (USP), indica que o cabelo da população brasileira, apesar de característica bem variada, possui uma tendência maior para o encaracolado, ficando entre as extremidades do liso e o afro-étnico (crespo). Como hábito cultural, a mulher, independentemente da classe social, vai ao salão ou realiza algum procedimento doméstico pelo menos uma vez por mês. A tintura e o alisamento estão entre os mais frequentes. Mas o público, sobretudo feminino, possui outras necessidades como o alongamento capilar.

Moradora da periferia de Porto Alegre, Amanda Jesus Rodrigues, 28, resolveu criar um pequeno salão em casa para atender mulheres que desejam fazer o procedimento com material sintético, mais barato, e que causa menos dano aos cabelos crespos.“O cabelo embaixo é natural da cliente, todo trançado. A fibra é aplicada em cima do cabelo, costurada. É possível ruiva ou loira e não danifica”, diz. “O nosso público aqui é maioria afro. Mas tem umas clientes brancas que vêm fazer luzes, progressivas, essas coisas. Mas o espaço é mais para tratamento de cabelo afro”. Por dia, Amanda atende de seis a oito mulheres. A mão-de-obra fica em torno de R$ 150 (US$ 48). Com o produto incluso, sai por R$ 300 (U$96). Os apliques usados por ela no salão são fabricados no estado de Minas Gerais.

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TODOS QUEREM A ÁFRICA

Empresas de todos os continentes estão interessadas em abocanhar parte do bolo deste segmento, de potencial estimado em 100 milhões de consumidores de classe média. A gigante indiana Godrej seguiu os passos de suas conterrâneas Marico, Dabur e VLCC, que já possuem operações em países como África do Sul, Marrocos e Nigéria e resolveu fincar os dois pés no continente africano. A empresa, que atua também em outros países da Ásia e possui operações na América Latina, tem no continente africano seu maior investimento fora da Índia. A África contribui com 31% de receitas dos seus negócios internacionais, o que equivale a US$ 200 milhões.

Com presença em 16 países africanos e receita crescente na África do Sul, Moçambique, Nigéria, Quénia, Gana, Uganda, Tanzânia e Angola, a Godrej vende extensões de cabelo, cosméticos capilares, colorações e outros produtos de cuidados pessoais fora do segmento de haircare. Sob o seu guarda-chuva estão marcas líderes de produtos capilares como Rapidol, Inecto, Frika e Kinky. Em 2011, a empresa adquiriu a marca Darling, líder e pioneira em produtos de extensão de cabelo. “Nós fabricamos localmente e nossos produtos são usados por mais de 100 milhões de consumidores africanos. Nosso plano é adquirir gradualmente a participação restante nos próximos cinco anos”, informou a empresa, através de nota. A África é o principal mercado para o cabelo indiano, cujo mercado de exportação é estimado em cerca de US$ 393,5 milhões anuais e apresenta taxa de crescimento anual entre 10 e 30 por cento ao ano.

Em 2015, a empresa norte-americana Strength of Nature, líder global na indústria de cuidados para cabelos étnicos e com faturamento anual de US$ 700 milhões, adquiriu da Unilever marcar importantes no mercado africano, como Motions, Just for Me, Consort e Groom & Clean. Em contrapartida, o Grupo Boticário, uma gigante brasileira do segmento de beleza, tem começado a marcar presença na África, mesmo que de forma tímida, com 16 lojas em Angola e uma em Maputo (Moçambique), vendendo maquiagens, perfumes e produtos para cabelo. Mas não descarta aumentar sua participação.

O setor vem numa crescente constante segundo a consultoria Euromonitor. Em 2010, movimentou US$ 2,65 bilhões. Em 2015 registrou faturamento de US$ 4,2 bilhões e a previsão é que alcance US$ 5,3 bilhões em 2020. Esses números incluem somente o mercado de haircare, que abrange produtos 2 em 1, shampoos, colorantes, condicionadores, tratamento para perda de cabelo, cremes para permanentes e relaxantes além de produtos para salão de beleza. Ou seja, não incluem extensões capilares e perucas, o chamado mercado de cabelos secos.

Embora o crescimento do setor seja global, a África Subsariana é marcada por disparidades significativas entre os países da região e, por consequência, não pode ser abordada como um mercado único, apresentando várias disparidades. Na Nigéria e Camarões, por exemplo, o crescimento esperado é de 5% para o período entre 2013 e 2018. Na África do Sul, mercado já considerado maduro, o setor não deve apresentar crescimento mas acredita-se que continue aquecido.

A L’Oréal também vem pensando grande na África. A gigante francesa possui duas plantas industriais no continente, uma na África do Sul e outra no Quênia, que respondem por quase metade dos produtos distribuídos na região subsaariana, a que mais cresce nos resultados da empresa, dona de marca populares como Garnier e Dark Amp; Lovely, com as icônicas embalagens de cor púrpura. A estratégia de crescimento do grupo segue duas vertentes: conquistar o consumidor final nas prateleiras das farmácias e supermercados e, através dos profissionais de cabelo, que aconselham seus clientes a comprarem seus produtos.

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Primeiramente, vem investido na aquisição de marcas locais, entre elas a SoftSheen Carson. E em julho do ano passado, inaugurou em Joanesburgo um centro de pesquisa para estudar as especificidades africanas, reunindo pesquisadores de diversas áreas. Na mesma cidade, a empresa mantém um centro de treinamento para formar profissionais do setor com as últimas tendências em cabelos multi-étnicos. Os alunos recebem um treinamento sobre gestão para que possam estabelecer seu próprio negócio após o aprendizado técnico.

A brasileira Maggie Rebola, 53, foi aluna de lá durante 18 meses. Há 20 anos vivendo na África do Sul, Maggie trouxe do Brasil durante uma viagem produtos para tratamento de cabelos danificados. “Era exatamente o que eu estava procurando, pois tem uma demanda muito grande para esse tipo de produto. Mas o começo foi bastante complicado, pois as sul-africanas não gostam de experimentar novos produtos. Elas ainda têm um pouco de resistência. Quase desisti e fechei”, conta. “Comecei a postar alguns de meus trabalhos em uma rede social, onde comecei a ter um retorno muito positivo. E comecei a aumentar minha clientela, que começou a divulgar meu trabalho de boca em boca”. Hoje, ela é conhecida pela cliente como Hair Doctor. “Atualmente, Maggie administra dois espaços – pedacinhos do Brasil, como costuma dizer: um em Johannesburgo e outro em Umhlanga-Durban. “Sou absolutamente apaixonada pelo que faço, pois o maior pagamento no fim de cada serviço que ofereço é o sorriso de satisfação e a auto estima que recupero de cada uma de minhas clientes. Isso realmente não tem preço”, disse.

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