Há 20 anos no Brasil, o egípcio Tamer Mansour tem se dedicado a levar a conhecimento para empresários brasileiros sobre as oportunidades existentes na África Árabe. Desde abril, ele responde como secretário-geral e CEO da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB).

Os países árabes formam o terceiro bloco que mais importa do agronegócio brasileiro, sobretudo cargas de proteína animal, atrás da Ásia (excetuando o Oriente Médio) e União Europeia. Por conta disso, é necessário não apenas fortalecer as negociações já existentes, como abrir novos mercados – inclusive na África Árabe. “Temos procurado por outros modos levar a conhecimento dos empresários brasileiros as oportunidades existentes na Região”, explica.

Formado originalmente em medicina veterinária, e, mais tarde, especializado em negócios e comércio exterior, Mansour fez carreira trabalhando em órgãos de comércio como países árabes. “Comecei na Câmara Árabe como assessor especial, dada minha experiência prévia no comércio bilateral com nações árabes”, lembra.

À ATLANTICO, Tamer Mansour fala sobre a celebração de Acordos de Livre Comércio, como o do Egito com o Mercosul, sobre o seu trabalho na elaboração de um planejamento estratégico da Câmara Árabe e as sobre as oportunidades de negócios existentes.

ATLANTICO – Quais são seus principais desafios frente à CCAB?

Tamer Mansour – Na posição de secretário-geral e CEO, respondo pela instituição em si, logo após o presidente. Participo das decisões institucionais e executivas de abrangência interna e externa à entidade. Nesse momento, estou particularmente envolvido nos desafios que envolvem a elaboração do planejamento estratégico da CCAB. No plano interno, estamos conduzindo com a ajuda da consultoria Ernst & Young uma ampla reestruturação em termos de cargos, funções e processos para que a tudo funcione melhor. No plano externo, a Câmara vê-se num momento desafiador de internacionalização. Esse momento já começou este ano com a inauguração de seu primeiro escritório internacional em Dubai. É o primeiro de muitos pontos de contato no mundo árabe, que vão nos ajudar a estar mais próximos de nossas contrapartes e a resolver mais rapidamente questões do comércio bilateral cuja resolução requer presença institucional. Como exemplos recentes posso citar o caso em que a Arábia Saudita revogou as habilitações de frigoríficos brasileiros de frango e a transferência da embaixada brasileira em Israel, tema sensível para muitos países árabes.

ATLANTICO – Qual o tamanho da África Árabe para os negócios brasileiros?

Tamer Mansour – No ano passado, os 22 países da Liga Árabe compraram do Brasil US$ 11,48 bilhões em produtos como açúcar, carne de frango, minério de ferro, carne bovina, grãos, entre outros. Desse total, US$ 4,29 bilhões (37%) foram obtidos no comércio com os árabes do continente africano.

ATLANTICO – Quais os principais potenciais de negócios que se apresentam para o Brasil?

Tamer Mansour – Há nesses países um grande potencial, principalmente no Egito, na Argélia, no Marrocos e na Líbia. Eles são grandes, populosos e com recursos que lhes permitem estabelecer relevantes fluxos de comércio complementar com o Brasil, de modo que todos ganhem. O Egito já tem acordo com o Mercosul, em vigor desde 2017, o que é uma das razões para o país ter se tornado um maior parceiro comercial ainda mais relevante. Há um acordo similar em negociação com o Marrocos, cujas divergências precisam ser superadas para que ele beneficie as duas partes. Também é preciso fazer acordos com outros países para ampliar as oportunidades de negócio e a livre circulação de investimento sem que haja bitributação. Há no Sudão uma expressiva comunidade de agricultores brasileiros estabelecida no país há anos e que é responsável por uma parcela expressiva da atividade econômica rural do país. É um verdadeiro caso de sucesso, fazendo do país um dos principais destinos de maquinário agrícola brasileiro na África. Esses exemplos devem ser um estímulo ao empresariado brasileiro para investir na África Árabe. Mas também podemos avançar institucionalmente, por meio de órgãos do nosso governo, na celebração de Acordos de Livre Comércio.

ATLANTICO – Como a CCAB tem atuado para estimular mais negócios com a África Árabe?

Tamer Mansour – Se de um lado não há dúvidas sobre o potencial desses países, de outro, ainda é necessário dar mais visibilidade para as oportunidades neles existentes. Por essa razão, a Câmara Árabe intensificou nos últimos anos as delegações dirigidas à África. No ano passado, levamos empresas de construção para a Argélia, que está fazendo grandes investimentos estatais em moradia popular, num programa parecido com o nosso Minha Casa Minha Vida. Também no ano passado ajudamos a organizar em parceria com a Embaixada do Brasil no Egito uma delegação empresarial para o Cairo. Temos procurado por outros modos levar a conhecimento dos empresários brasileiros as oportunidades existentes na África Árabe. Os esforços são sentidos. Hoje temos um número expressivo de frigoríficos que têm comércio regular de carne bovina com o Egito. Graças a uma ação institucional da Câmara Árabe e de outras entidades, o  país removeu a obrigatoriedade de inspeção veterinária complementar. Isso era feito por veterinários egípcios no Brasil. Com essa ação, acreditamos que o comércio com o Egito, que é o maior parceiro comercial do Brasil no mundo árabe desde 2018, vai aumentar ainda mais.

“Temos procurado por outros modos levar a conhecimento dos empresários brasileiros as oportunidades existentes na África Árabe”

ATLANTICO – O novo governo brasileiro se posiciona, politicamente, de maneira diferente ao que havia em relação aos últimos anos. Em linhas gerais, como o senhor avalia o início do governo Bolsonaro?

Tamer Mansour – Temos as mesmas preocupações já manifestadas pelo setor produtivo. A transferência de Embaixada do Brasil de Tel Aviv, em Israel, para Jerusalém acendeu a luz amarela no comércio entre Brasil e os Países Árabes. Como sabem, o tema é de extrema sensibilidade não só para governos árabes, mas para os consumidores desses países, que veem no Brasil uma nação amiga e como produtora de alimentos halal. Se essa massa de consumidores perceber o Brasil como uma nação hostil, então há de fato o risco de retaliação comercial. Já aconteceu antes, com empresas americanas e dinamarquesas. Esperamos que as ações do governo brasileiro continuem sendo pautadas no sentido de evitar ruídos para que o comércio bilateral com os árabes continue a evoluir.

ATLANTICO – Como a CCAB tem acompanhado esse movimento de aproximação do governo brasileiro com Israel?

Tamer Mansour – No momento, setores importantes no governo brasileiro estão conscientes da necessidade do Brasil manter uma posição de não-conflito na diplomacia com os países árabes. Nos últimos vinte anos, as exportações do Brasil para os países árabes cresceram sete vezes e podem chegar a 20 bilhões de dólares em quatro anos se continuarmos a estimular as relações comerciais e melhorar a promoção do produto brasileiro no bloco árabe. Além disso, existe do lado árabe muito interesse em construir parcerias ganha-ganha com o Brasil. Isso dá pela expertise brasileira em produzir alimentos e os imensos recursos de US$ 2,3 trilhões que os países árabes têm alocados em seus fundos soberanos. Esses recursos estão sendo usados para fazer a transição das economias árabes para a era pós-petróleo. Isso inclui, por exemplo, projetos de produção de alimentos nos países árabes e iniciativas de capital misto no Brasil e em outros países.

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ATLANTICO – Após a visita de Bolsonaro a Israel, houve um jantar organizado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e ministra da agricultura, Tereza Cristina, com representantes de países árabes e de expressiva representação islâmica. Como o senhor avaliou essa ação?

Tamer Mansour – Foi um passo importante, pois, a partir do jantar, diálogos tiveram início. Antes, essa interação não havia. Então nós entendemos que temos melhores condições para alcançar um consenso sobre a importância dos países árabes e uma posição diplomática que permita ao nosso país continuar evoluindo nessa relação.

“No momento, setores importantes no governo brasileiro estão conscientes da necessidade do Brasil manter uma posição de não-conflito na diplomacia com os países árabes”

ATLANTICO – Como o senhor citou, desde 2017 o Mercosul e o Egito possuem acordo de livre comércio. O que mudou de lá pra cá? Que frutos já foram colhidos?

Tamer Mansour – O fato do Egito ter se tornado o maior mercado para os produtos brasileiros no mundo árabe é consequência desse acordo de livre comércio e só reforça a importância de celebrarmos mais entendimentos do tipo. Há um avanço muito significativo, também no lado egípcio, que encontrou no Brasil um mercado interessante para seus produtos, especialmente do ramo de tecelagem, uma especialidade daquele país. Então, temos um avanço expressivo no sentido de construir uma relação comercial verdadeiramente bilateral em que todos ganham.  Há muito potencial para produtos brasileiros no Egito, não só alimentos, mas para cosméticos e medicamentos halal também. O país é o mais populoso da Liga Árabe com 97 milhões de habitantes, com uma população que cresce a taxas chinesas. Será um crescente mercado consumidor para produtos brasileiros e está modernizando sua infraestrutura, com o novo Canal de Suez, cidades inteligentes em construção no território, além de zonas de produção incentivada – semelhantes à Zona Franca de Manaus, que são capazes de acessar muitos outros mercados por meio dos acordos de livre comércio que o Egito já firmou.

ATLANTICO – O senhor também lembrou de negociações similares com o Marrocos, já há algum avanço?

Tamer Mansour – O acordo Mercosul-Marrocos está parado por sensibilidades do setor agropecuário marroquino, que teme uma competição desleal com o Brasil e com a Argentina, principalmente no segmento de curtumes. Esse é um acordo importante, cujas divergências precisam ser superadas. Com [outros] países da África Árabe, infelizmente não há mais acordos em andamento. É preciso avançar nisso também.

A Liga de Estados Árabes, também chamada apenas por Liga Árabe, é uma organização, formada atualmente por 22 países, com objetivo de estreitar relações no âmbito político, econômico, social e cultural entre os países de maioria árabe, além de criar um ambiente de cooperação entre os mesmos. Com sede em Cairo, capital do Egito, a Liga é formada por Arábia Saudita, Argélia, Bahrein, Catar, Comores, Djibuti, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Palestina, Síria (atualmente suspenso), Omã, Somália, Sudão e Tunísia.

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