Flávio Lima Rocha

2019 está sendo um ano ímpar para o fortalecimento do comércio bilateral entre Brasil e Senegal. No início do ano, a embaixada do Brasil em Dacar decidiu reabrir seu setor comercial, fechado por vários anos. Depois, decidiu criar dois eventos anuais para reunir empresários e investidores dos dois países.  

Por outro lado, a embaixada tem incentivado o governo senegalês a negociar um acordo de cooperação e facilitação de investimentos. “Ao criar um ambiente seguro para os investidores, acredito que haverá um renovado interesse pelos investimentos nos mercados das duas margens do Atlântico”, defende o embaixador do Brasil no Senegal e na Gâmbia, Flávio Lima Rocha.

Flávio Lima Rocha

Em entrevista à ATLANTICO ele fala sobre as oportunidades para os empresários brasileiros no Senegal, sobre a criação da área de livre comércio intracontinental  e também sobre a importância da África para o governo brasileiro. “O empresário brasileiro deve deixar de lado certas idéias preconcebidas e avaliar, ele mesmo e in loco, as condições para se fazer negócio no continente africano”, afirma. “A África continua uma prioridade para o Brasil”. 

“Há um diálogo regular entre os dois países nos organismos internacionais. Todavia, há muito o que fazer no plano econômico-comercial”.

As relações comerciais entre Brasil e Senegal evoluíram de forma significativa entre 2002 e 2011, quando o intercâmbio entre os dois países aumentou em 822%, passando de US$ 29,3 milhões para US$ 240,9 milhões. Qual o panorama da relação bilateral Brasil-Senegal hoje?

Brasil e Senegal mantém relações de amizade e cooperação. Estamos presentes em Dacar desde o século XIX, quando o Brasil estabeleceu um consulado na cidade. Após a independência do Senegal, o Brasil abriu prontamente uma embaixada em Dacar, uma das primeiras na África subsaariana. Desde então, o relacionamento político se desenvolveu satisfatoriamente, com troca regulares de visitas de alto nível. Há um diálogo regular entre os dois países nos organismos internacionais. Todavia, há muito o que fazer no plano econômico-comercial.

Em linhas gerais, quais são suas estratégias para fortalecer as relações comerciais entre Brasil e Senegal?

O primeiro passo foi obter a reabertura do setor comercial da embaixada, que permaneceu fechado por vários anos. Uma vez reaberto em janeiro de 2019, a embaixada estabeleceu como objetivo a realização de dois grandes encontros empresariais por ano, que chamamos de “Journée Brésilienne de Networking”. Estou convencido de que a falta de conhecimento sobre o potencial econômico do Brasil e do Senegal por parte dos operadores dos dois países é, hoje, o maior obstáculo ao incremento do intercâmbio comercial e dos fluxos de investimentos. A embaixada propôs, ainda, ao lado senegalês, a negociação de um acordo de cooperação e facilitação de investimentos. Ao criar um ambiente seguro para os investidores, acredito que haverá um renovado interesse pelos investimentos nos mercados das duas margens do Atlântico.

“O empresário brasileiro deve deixar de lado certas idéias preconcebidas e avaliar, ele mesmo e in loco, as condições para se fazer negócio no continente africano”

Que áreas ou setores oferecem mais oportunidades de negócios para os empresários brasileiros?

Uma rápida análise da pauta exportadora brasileira para o Senegal nos últimos anos indica uma participação preponderante do agronegócio: arroz trincado, ovos para incubação, açúcar, pimenta, galos e galinhas para reprodução e outros bovinos reprodutores, entre outros. Em virtude do programa “Mais Alimentos Internacional”, foi possível aumentar expressivamente as vendas de máquinas e equipamentos agrícolas. Enfim, creio que há inúmeras oportunidades em setores ainda não explorados, tais como o de máquinas e equipamentos em geral, material de construção e revestimentos, veículos de transporte e cargas e o de serviços de engenharia e construção. No meu entender, o Senegal deve ser visto não só como um mercado final, mas também como porta de entrada para um grande mercado regional, dados os esforços de integração dos países da África Ocidental.

Quais são os principais desafios para que o empresário brasileiro se aproxime da África? 

O principal desafio é a falta de conhecimento. Já se tornou um chavão a frase que diz ser a África a nova fronteira do desenvolvimento econômico. O empresário brasileiro deve deixar de lado certas idéias preconcebidas e avaliar, ele mesmo e in loco, as condições para se fazer negócio no continente africano. Não considero que a língua seja um problema maior.

“A falta de conhecimento sobre o potencial econômico do Brasil e do Senegal por parte dos operadores dos dois países é, hoje, o maior obstáculo ao incremento do intercâmbio comercial e dos fluxos de investimentos”.

Como o senhor vê a criação da Zona de Livre Comércio Continental Africana na perspectiva de diplomata brasileiro na África? De que forma essa zona poderia beneficiar o Brasil?

O estabelecimento da Zona de Livre Comércio Continental levará, ainda, muitos anos para trazer reais benefícios para as economias africanas. Para tirar pleno proveito de suas vantagens, o Brasil deverá se reposicionar e encorajar o empresário brasileiro a investir também no continente, estabelecer uma presença. O bom momento é esse!

Nos últimos anos, o Brasil tem reduzido sua presença na África. Como o senhor avalia essa abordagem brasileira no continente? 

No meu ver, a presença do Brasil decresceu em razão do pouco dinamismo de sua economia. A África continua uma prioridade para o Brasil, em virtude de laços políticos, econômicos, culturais e afetivos. O Governo tem reavaliado suas relações com o continente e quer dar maior ênfase à vertente econômico-comercial.

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