A pandemia do COVID-19 pode dobrar o número de pessoas que sofrem de fome aguda. O número pode chegar a 265 milhões de pessoas até o final de 2020, a menos que sejam tomadas medidas rápidas. A projeção é do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA), que divulgou na última terça-feira o Relatório Global Anual sobre Crises Alimentares, produzido com outros 15 parceiro.

Segundo o documento, é vital que os programas de assistência alimentar seja mantido, incluindo os próprios programas do PMA, que chegam até 100 milhões de pessoas vulneráveis em todo o mundo.  “Nós não podemos confiar apenas nos grandes mercados globais e nas commodities”, disse José Graziano, ex-diretor geral da FAO, durante um webinar realizado nesta sexta-feita pelo Instituto Brasil África (IBRAF). 

José Graziano

Também participaram do diálogo Jean Pierre Senghor, secretário executivo do Conselho Nacional de Segurança Alimentar do Senegal, Hippolyte Fofack, economista-chefe do Banco Africano de Importação e Exportação (Afreximbank) e Christopher Till, fundador e diretor do Museu do Apartheid. O encontro foi mediado por João Bosco Monte, presidente do IBRAF. Todos eles defenderam modelos locais de produção de alimentos. “Precisamos aproveitar esse momento, que estamos todos em nossas casas, para construir um circuito local de produção e consumo de alimentos”, provocou Graziano.

Para Hippolyte Fofack, o principal desafio atual é  garantir a entrega de alimentos para todos uma vez que o mercado global tem sentido o impacto do fechamento das fronteiras.  “Falar de crise não é olhar para o futuro. Isso já está acontecendo agora. A crise tem exposto as falhas no atual modelo de importação de alimentos”.

“A situação nos mostrou que é importante que se produza alimentos localmente e, principalmente, que se estimule que os jovens aprendam sobre os processos de produção”, argumentou Christopher Till.

Jean Pierre Senghor

Por sua vez, Jean Pierre Senghor destacou a importância da Cooperação Internacional para esse momento de crise. “Não seremos capazes de alcançar um estágio de produção de alimentos se não investirmos em pesquisa e aprendizado”, defendeu.

“O Brasil, ao longo dos últimos 40 anos, saiu da posição de um importador para ser um país exportador de alimentos, e isso pode servir de modelo para a África. Não podemos esperar até amanhã quando as pessoas sentem fome hoje”, finaliza João Bosco Monte.

Parceria estratégica

Em janeiro, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar do Senegal e o IBRAF assinaram um acordo para o desenvolvimento de projetos e estreitamento de laços. As duas organizações se comprometem em realizar ações conjuntas no âmbito da segurança alimentar, como a capacitação para jovens e ações de transferência de tecnologia. Entre as ações, estão previstas duas edições Youth Technical Training Program (YTTP), programa do IBRAF que capacita jovens africanos no Brasil.

Este foi o segundo webinar do IBRAF sobre os impactos do COVID-19 no continente africano. O primeiro foi focado na importância da cooperação econômica internacional neste momento de pandemia

Dados desafiadores

O Relatório Global sobre Crises Alimentares trouxe dados alarmantes referentes ao ano de 2019.  “O COVID-19 é potencialmente catastrófico para milhões que já estão presos por um fio. Devemos agir coletivamente agora para mitigar o impacto dessa catástrofe global”, destaca   Arif Husain, economista sênior do PMA. 

  • A maioria das pessoas que sofreram de insegurança alimentar aguda em 2019 está em países afetados por conflitos (77 milhões), mudanças climáticas (34 milhões) e crises econômicas (24 milhões de pessoas).
  • Dez países registraram as piores crises alimentares em 2019: Iêmen, República Democrática do Congo, Afeganistão, Venezuela, Etiópia, Sudão do Sul, Síria, Sudão, Nigéria e Haiti.
  • O Sudão do Sul tinha 61% de sua população em estado de crise alimentar (ou pior) em 2019. Seis outros países também tiveram pelo menos 35% de suas populações em estado de crise alimentar: Sudão, Iêmen, República Centro-Africana, Zimbábue, Afeganistão, República Árabe da Síria e Haiti.
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