A queda do preço das sacas de café tem desafiado o setor no ano de 2019. O impacto está sendo sentido tanto pelos produtores africanos como os produtores do Brasil, referência neste mercado, que é considerado um dos mais tradicionais do mundo. Além de maior exportador, é Brasil também o maior produtor de grãos da bebida e o segundo maior consumidor em números absolutos. Vietnã, Colômbia, Indonésia e Etiópia fecham o top-5 de maiores exportadores mundiais.

Embora a safra brasileira venha crescendo, os lucros não tem acompanhado de forma proporcional. Segundo dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), o volume de exportações do Brasil, só em abril deste ano, foi 25% maior que em 2018. O valor, de US$ 370 milhões, no entanto, só representa crescimento de 1% no mesmo período.

Um dos principais motivos para isso está na redução dos preços da saca de café, que começou 2019 custando R$ 389. Para efeito de comparação, em 2017 o preço chegou a ser de R$ 500. Essa queda é justificada pela safra recorde brasileira em 2018, que registrou um aumento de 37% e gerou um aumento na oferta.

A realidade do mercado africano de café

A participação dos países africanos no mercado internacional do café reduziu bastante desde os anos 70, quando chegou a representar 32% do mercado global. Nos dias atuais, a África participa de apenas 10% do market share, de acordo com a Organização Internacional do Café. Um dos motivos para esta queda na participação global está na concorrência com os países asiáticos, como Vietnã, Indonésia e Índia.

Além disso, a mudança na preferência do consumidor também afetou a produção africana. Anteriormente, a expertise do continente era voltada para a produção de café Robusta, um tipo mais amargo, mais barato e com mais cafeína.  Atualmente o mercado prefere o café do tipo Arábica, de maior qualidade. A Etiópia lidera a produção desse tipo de café no continente, com 17 milhões de sacas anuais.

Para o presidente da Organização Internacional do Café, o brasileiro José Dauster Sette, a realidade do Brasil, na posição de maior produtor e exportador de café, pode servir de exemplo para o continente africanos em três áreas: “Na capacitação das entidades de cafeicultores pode reduzir o custo do fornecimento dos serviços de extensão por meio da agregação, na melhoria da eficiência do setor produtivo através do aumento da produtividade e da lucratividade, e no desenvolvimento dos mercados consumidores domésticos para melhor sustentar os preços pagos aos produtores e aumentar sua resiliência à volatilidade dos preços internacionais”.

Embora existam boas expectativas para o aumento da produção nos próximos anos, a situação no continente ainda requer atenção. “A questão não é apenas aplicar tecnologia dentro da fazenda. É preciso também ver a realidade fora da fazenda [no mercado]. É essa questão que muita gente não entende na África. Acreditam que é só aplicar uma tecnologia brasileira. Isso pode dar certo enquanto tiver ajuda, depois volta a ser o que era. É preciso ser feita uma mudança estrutural”, argumenta Carlos Brando, presidente do conselho mundial da Plataforma Global do Café.

Como aumentar o consumo?

Um dos principais desafios para o mercado de café na África está no baixo consumo. Segundo dados da Organização Internacional do Café, o consumo da bebida no continente ainda está bem abaixo do resto do mundo. Além disso, nenhum país africano na lista de maiores consumidores per capita de café.

Segundo a African Fine Coffee Association (AFCA), o aumento do consumo interno é vital para transformar a cadeia local, além de contribuir para o equilíbrio entre oferta e demanda. Para a instituição, o consumo doméstico se apresenta como uma saída de mercado, pois aumenta a conscientização do produtor sobre as demandas, fortalece o setor privado nacional e oferece uma experiência vital para a eventual exportação de produtos de valor agregado.

Um dos caminhos para este aumento do consumo tem sido o investimento em cafés especiais, que, com técnicas diferenciadas de produção, promovem novas experiências e sabores. A demanda tem crescido por todo o mundo. Além disto, de acordo com a AFCA, os cafés especiais podem apresentar vantagens financeiras para os pequenos produtores.

Novo Acordo Internacional do Café

Durante encontro do Conselho Internacional do Café – que aconteceu no último dia 29 de março em Nairóbi, no Quênia –, o Brasil foi escolhido para presidir as negociações acerca do novo Acordo Internacional do Café, que entrará em vigor a partir de 2021. O acordo vigente, de 2007, foi desenvolvido com objetivo de facilitar o comércio internacional, além de fortalecer o papel da OIC comum um ambiente consultivo.

Segundo José Dauster Sette, das OIC, o Brasil está encabeçando um grupo de trabalho, que foi constituído para examinar as propostas de membros acerca da atualização do Acordo, levando em consideração a Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “Estamos no começo um longo processo de negociação que deve concluir com a celebração de um novo Acordo em 2021, o qual deverá entrar em vigor algum tempo depois, após a ratificação do convênio pelos diferentes parlamentos nacionais”, explica.

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Para o governo brasileiro, a escolha se deu devido ao café brasileiro ser “referência em sustentabilidade mundial, graças a leis que asseguram a preservação da biodiversidade e os direitos de quem trabalha na lavoura e na indústria cafeeira”.

“Além da reconhecida competência e qualidade da diplomacia brasileira, o Brasil é credenciado a exercer um papel de liderança nessas negociações por ser o maior produtor, maior exportador e segundo maior consumidor mundial de café”, finalizou Dauster Sette.

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