InnovaLab: um hub para inovação e tecnologia de Guiné-Bissau

Através do desenvolvimento de novas tecnologias e o estímulo contínuo à inovação, a InnovaLab capacita empresários que pretendem expandir seus negócios, bem como jovens que ainda estão entrando no mundo do empreendedorismo. Para os empresários, a empresa trabalha na melhoria do desempenho de suas atividades, atuando principalmente na análise de problemas organizacionais e do desenvolvimento de planos de melhoria. Enquanto isso, os jovens iniciantes são apresentados ao mundo das redes digitais e das novas tecnologias, ampliando oportunidades de trabalho. Esses jovens também são acompanhados e treinados nas áreas de gestão, e apoio nos seus negócios.

À ATLANTICO, Adulai Bary, co-fundador e atual CEO da InnovaLab, se mostrou empolgado ao falar da empresa que ele idealizou juntamente com seus colegas guineenses que, assim como ele, também reconhecem a importância da inovação e tecnologia no desenvolvimento do país.

ATLANTICO: Quando e como surgiu a InnovaLab?

Adulai Bary: A InnovaLab surgiu no ano 2015, através de uma oportunidade que tive de participar do Fórum da Francofonia, em Bruxelas, Bélgica. Nesse momento, eu estava trabalhando numa empresa de telecomunicações e acabei descobrindo no evento um movimento muito interessante de laboratórios, novas ideias e startups. Ali eu tive contato com ideias inovadoras que auxiliam na geração de emprego, redução da criminalidade, criação e promoção de negócios. Quando retornei à Bissau, falei com meus colegas sobre essa iniciativa que poderia ser uma boa ideia para o nosso sistema, tendo em conta a situação em que o nosso país se encontrava. Uma das minhas colegas acabou concordando. Daí pensamos na melhor forma de iniciar. A principal dificuldade era a falta de meios e equipamentos. Porém, nós tínhamos muita experiência e competência. Então procuramos saber o que era necessário fazer, que naquele primeiro momento era mudar a mentalidade das pessoas, porque tudo aquilo era novidade.

ATLANTICO: Quais foram os primeiros passos, a partir de então, para a criação da InnovaLab?

Adulai Bary: Na época, estávamos acompanhando as mudanças da tecnologia e por isso, iniciamos com a sensibilização dos jovens. Demos o primeiro passo, que foi a criação de um programa de rádio, de trinta minutos. No primeiro momento, falávamos sobre as novidades na área de tecnologia. Começamos por apresentar conceitos tais como as funcionalidades de um computador e como usá-lo. Tínhamos também um bloco de mentory, que ensinava como criar empresas e projetos. Por fim, falávamos sobre negócios e financiamentos, convidando parceiros a partilharem oportunidades e experiências.

Até meados de 2016 notamos que o programa já tinha muitos ouvintes e começamos por receber várias solicitações de agentes que queriam marcar encontros para discutir conosco sobre projetos e conselhos.

Depois disso, vimos que era necessário organizar meios para atingir mais pessoas. Assim, organizamos nosso primeiro bootcamp sobre empreendedorismo. Tínhamos quatro candidatos e todos ganharam financiamento do Banco Mundial. Depois disso, recebemos o apoio da embaixada dos EUA, procuramos um espaço, começamos a pagar e receber agentes nos nossos horários livres. Esses agentes monitoravam e principalmente acompanhavam os projetos que selecionamos durante o bootcamp.


“A principal dificuldade era a falta de meios e equipamentos. Porém, nós tínhamos muita experiência e competência”

ATLANTICO: Quais foram as principais dificuldades nesse período?

Adulai Bary: No início foi difícil, não conseguimos nenhuma parceria do estado e das empresas locais, mas com o tempo as coisas começaram a melhorar. Na época, precisávamos de recursos para alimentação e também de salas para executar as atividades do bootcamp. Aí conseguimos construir uma relação muito boa com a embaixada dos Estados Unidos que nos ajudou bastante nesse sentido. Eles nos apoiaram com 20 mil dólares e com isso fizemos algo bem interessante: conseguimos 500 africanos como candidatos. Quando lançamos a aplicação na internet, disponibilizamos o número de telefone do nosso programa de rádio para que as pessoas pudessem entrar em contato connosco. Tínhamos previsto formar 45 jovens mas superamos essa expectativa. Isso foi surpreendente. Numa segunda fase, a embaixada financiou novamente. Então, conseguimos realizar outros bootcamp em Gabu, Bafatá e outras regiões do país onde passamos a formar as mulheres produtoras. Assim, elas poderiam utilizar as tecnologias digitais para acelerar a venda dos seus produtos.

Leia também: Paulo Gomes e uma nova Guiné-Bissau

ATLANTICO: Vocês têm atualmente quantas empresas incubadas na InnovaLab?

Adulai Bary: Temos atualmente cinco empresas incubadas. A ideia é acompanhar essas empresas à distância, para que depois, numa outra fase, elas possam pagar.

ATLANTICO: Como vocês avaliam os projetos realizados até hoje?

Adulai Bary: Os principais desafios nos primeiros anos foram a mudança de mentalidade, o envolvimento do estado, setores privados e das organizações internacionais. Mas hoje podemos dizer que já superamos esse problema e estamos numa boa caminhada. No último evento que tivemos, por exemplo, organizamos uma competição e a empresa que venceu nos representou na Tanzânia para uma competição regional. Essa empresa também vai nos representar na Suíça para uma competição mundial. O movimento empreendedor já está sendo criado, o interesse já existe e estamos com um plano de ação para os próximos cinco anos.


“Não podemos focar apenas na área de empreendedorismo, mas também na criação de uma massa crítica de engenheiros e cientistas”.

Atualmente estamos trabalhando com uma senhora Aliesha Baldé, com o apoio do Sr. Paulo Gomes. Essa senhora já trabalhou conosco para desenhar melhor esse programa que iniciamos. Não podemos focar apenas na área de empreendedorismo, mas também na criação de uma massa crítica de engenheiros e cientistas. Ela está trabalhando e identificando parceiros, mas já temos eixos a seguir.

Também estamos com uma campanha para influenciar o Estado a incluir a informática nos currículos desde cedo, e assim possibilitar a formação de uma massa crítica de crianças. Estamos negociando também com o Paulo Gomes a criação de um fundo de investimentos, pois temos projetos que têm que sair do laboratório, e que precisam ser financiados. Essa é a ideia, mas ainda precisamos de infraestruturas e de internet.

ATLANTICO: A InnovaLab possui algum diálogo com entidades brasileiras? Há algum diálogo com outros países africanos?

Adulai Bary: Uma vez falamos com um brasileiro, ele tinha proposto a oportunidade de dialogar, mas até agora nada certo. Em relação ao continente africano, somos embaixadores de uma organização Suíça que organiza competições a nível da África, Ásia e Europa. Estamos em parceria com CTIC Dakar, incubadora pioneira das tecnologias em Senegal e também somos membros de Next Einstein, em Ruanda. Eu pessoalmente sou embaixador do Next Einstein aqui em Guiné-Bissau, organização criada pelo African Institute for Mathematical Sciences, que está promovendo a expansão da tecnologia e ciência na África. Fazemos parte de algumas outras redes,  participamos de eventos, então, de certa forma, estamos conectados com diferentes ecossistemas. A ideia da InnovaLab é trazer novas ações que podem estender para outros países.

ATLANTICO: Quais projetos saíram da InnovaLab e estão mudando a vida de pessoas? Existe alguma startup em pleno funcionamento?

Adulai Bary: Temos o site Bandim Online, que vende de produtos da Guiné-Bissau, assim como uma escola comunitária de TICs que também está funcionando e faz parte de um desafio promovido pelo Banco Mundial. Outras empresas que também já estão em funcionamento são a Big Technology, uma empresa de prestação de serviços e o projeto UBUNTU para energia solar. Nós temos outras ideias, muito avançadas até, mas infelizmente elas ainda não possuem  financiamento. Nós criamos ainda uma plataforma chamada “Nha Voto” (“Meu Voto”), que consiste em influenciar a população a construir uma cidadania mais ativa, de modo que o voto seja direcionado aos governos que irão levar em conta o empreendedorismo e as novas tecnologias em seus programas de governo. Também estamos a criar um robô que irá utilizar a inteligência artifical para traduzir a língua crioula para português. A meta agora é sair da fase de aceleração, sair do laboratório e encarar o mercado.

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