Mel Mattos e a “morabeza” caboverdiana

Não é de hoje que artistas brasileiros se aventuram em países africanos para a troca de experiências e intercâmbio cultural. A cantora e compositora brasileira Mel Mattos não fugiu à regra e se rendeu aos encantos de Cabo Verde, onde esteve recentemente em turnê. Aos 39 anos, com dois álbuns lançados, e uma carreira consolidada em sua terra natal, Fortaleza, Mel Mattos se rendeu aos encantos do país africano.

Mel Mattos se apresenta no programa “Show da Manhã”, em Cabo Verde

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Segundo a artista, Cabo Verde se revela como um lugar de forte conexão com a cultura brasileira. Ao voltar para casa, em conversa com a ATLANTICO, Mel conta ainda que foi muito bem recepcionada pelos cabo verdianos, mesmo sendo completamente desconhecida no país. “As pessoas me abraçavam de forma muito calorosa. Eu não imaginava que ia ter uma plateia tão linda me recebendo”, lembra. “As pessoas de Cabo Verde são um grande patrimônio do país, são pessoas maravilhosas, muito afetuosas”.

O convite para se apresentar em Cabo Verde surgiu a partir de uma parceria da produtora WM Cultural, que está desenvolvendo projetos no País. Por lá, Mel Mattos apresentou as músicas do seu mais recente trabalho, o álbum Demodé. “O convite surgiu numa época em que a Cidade da Praia respirava música, quando aconteciam eventos importantes, como o Atlantic Music Expo (AME) e o Krioll Jazz Festival. Foi um momento bem específico”, revela.


“As pessoas de Cabo Verde são um grande patrimônio do país, são pessoas maravilhosas, muito afetuosas”.

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Mel Mattos em entrevista na Rádio Universitária Jean Piaget

Durante a sua estadia na capital caboverdiana, Mel Mattos atuou em três lugares, com públicos totalmente distintos. “Toquei durante o AME, no palácio Ildo Lobo. Depois passei pela Acqua, que é um ambiente bem descontraído. Por fim, tive a oportunidade de atuar numa praça, no interior da ilha. Era um lugar simples, mas que me trouxe um outro olhar sobre a realidade caboverdiana”, lembra.

Sobre a musicalidade e receptividade crioula, a cantora não hesita em falar da “malemolência” dos caboverdianos, da facilidade em receber quem é de fora, dos ritmos e da composição das músicas. Ela lembra, de forma eufórica, que se encantou com a palavra “Morabeza”, uma expressão do crioulo caboverdiano que significa receptividade. “Senti a morabeza na musicalidade”, destacou.

Ela acredita que essa forte conexão se deve ao fato de Cabo Verde estar numa posição estratégica em relação ao Brasil – são apenas 4 horas de avião. Isso, segundo ela, faz com que a música brasileira seja muito bem recebida, e de forma bastante calorosa e familiar. “Levei um projeto de samba, atuei com músicos locais caboverdianos e eles foram super cuidadosos. Eles se entregavam até nas músicas que não conheciam”, explica. Ela acredita que a forte relação entre os ritmos e os instrumentos dos dois países facilitaram bastante a troca com os músicos, com os quais ela atuou.  “Colocamos um molho brasileiro na catchupa”, relata a artista, aos risos.

A artista voltou com “gostinho de quero mais”. Para ela, não há dúvida de que Cabo Verde está na lista de seus próximos destinos para novos intercâmbios profissionais. Cantoras caboverdianas, como Mayra Andrade, Ceuzany Pires e Neuza de Pina despertaram a atenção de Mel. Ela conta que já mantém contato com essas artistas. “As viagens são sempre grandes fontes de inspiração. Conheci essas cantoras incríveis, batemos papo e hoje estamos conectadas”, revela. “O grande lance é deixar aberto e sentir o momento”.

(Foto: Alana Andrade)

Natural de Fortaleza, Mel Mattos é formada em estilismo e moda pela Universidade Federal do Ceará e entrou no mundo da música muito cedo, por influência da família. Depois de abrir mão da formação para se dedicar à música, ela já contabiliza dez anos de carreira autoral, e vinte anos desde que estreou nas bandas de baile. Seus dois álbuns autorais, “Demodê?!” (2016) e “O Retratista” (2010), contam com a participação de artistas brasileiros relevantes como Dominguinhos, Waldonys e Sidney Magal. Nos palcos dos festivais, casas de shows e blocos carnavalescos, Mel apresenta canções dos seus álbuns de estúdio e de seus projetos musicais temáticos, como “Mel Com Samba”, “Obrigado, Axé” e “Canções de Dominguinhos”.

Catchupa

Catchupa é um prato típico da gastronomia de Cabo Verde. Elaborada com feijão, milho cozidos e vários legumes, o prato pode ser acompanhado de peixe ou outros tipos de proteína animal.

A Catchupa é o prato tradicional da gastronomia de Cabo Verde (Foto: Bantumen)

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