Paulo Rogério Nunes: criatividade, inovação e “baianidade”

Uma das maiores do Brasil e considerada a cidade mais negra fora do continente africano, Salvador tem se destacado por conta das iniciativas ligadas ao empreendedorismo. Uma dessas iniciativas chama-se Vale do Dendê, uma aceleradora para novos negócios que seleciona startups que atuam com economia criativa e tecnologia. O projeto foi idealizado por Paulo Rogério Nunes, ao lado de alguns parceiros.

Paulo Rogério ao lado dos seus sócios.
Da esquerda para direita: Rosenildo Ferreira, Diretor de Inovação; Paulo Rogério Nunes, Diretor-Executivo; Ítala Herta, Diretora de operações; e Hélio Santos, Diretor de Relações Governamentais e mentorias da Vale do Dendê.

Nascido na periferia de Salvador, 38, Paulo Rogério é empreendedor, publicitário e consultor em diversidade. Ao longo da sua infância, sempre teve os pais como referência e desde muito pequeno se aventurava em projetos ligados ao empreendedorismo, como a produção de um jornal dentro da sua comunidade, produção de shows com os amigos e venda de camisetas grafitadas. Considerado um dos 100 afrodescendentes mais influentes do mundo pela Most Influential People of african Descent – MIPAD, organização global ligada à ONU, Paulo já teve a oportunidade de conhecer o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por conta da relevância do seu trabalho.

Com o lema “Criatividade, Inovação e Baianidade”, a Vale do Dendê segue a linha de outras aceleradoras do mundo, como as que existem no Vale do Silício nos EUA, porém traz a ideia de incluir e empoderar uma parcela da sociedade historicamente excluída. À ATLANTICO, Paulo Rogério fala sobre como iniciou a aceleradora, que trabalhos estão sendo feitos, quais os próximos desafios.

Paulo Rogério nas ruas do Pelourinho, Salvador, Bahia. Foto: Ricardo Prado.

ATLANTICO – Como surgiu a Vale do Dendê. De onde veio essa ideia?

Paulo Rogério – O Vale do Dendê é um empreendimento de impacto social que surgiu em 2016. O objetivo era fomentar a inovação, a criatividade e, sobretudo, dar visibilidade ao empreendedorismo negro protagonizado por afrodescendentes. Essa ideia surgiu através de experiências dos co-fundadores do Vale, interligados ao tema.  No meu caso particular, morei nos EUA, onde tive contato com o tema da inovação de mídias. Quando eu vivia lá, percebi que várias cidades do mundo estavam investindo na economia criativa e na inovação para melhorar suas economias, inclusive cidades africanas como Nairóbi em Quênia e Addis Abeba na Etiópia. Quando percebi isso, cheguei à conclusão que Salvador deveria aprofundar mais nesse tema, então comecei a convidar pessoas que tinham interesse nisso, para discutir e repensar a possibilidade de uma organização. Daí, criamos o Vale do Dendê. Ela possui três linhas de atuação. A aceleradora de negócios apoia empreendedores que precisam de mentoria e consultoria. Temos ainda uma escola de inovação, empreendedorismo e praticidade na qual oferecemos cursos relacionados a esse tema, e temos também uma consultoria de apoio às empresas, fundações e qualquer organização que consegue entender essa relação entre a diversidade e a inovação.

ATLANTICO – Quais foram as principais dificuldades enfrentadas nesse percurso?

Paulo Rogério – A principal dificuldade na criação do Vale do Dendê foi o processo inicial de conversar com as pessoas da cidade para que elas entendessem o que era o tema da inovação, e o mundo das startups. Além disso, foi preciso apresentar a noção de economia criativa, pois a cidade é muito ligada ao turismo e serviços e a população ainda tem dificuldades para entender o poder dessa nova economia. A segunda foi a dificuldade financeira, pois sabemos que no Nordeste do Brasil as coisas são mais complicadas, os fundos e investimentos são mais difíceis de chegar aqui e nós tivemos esse papel de provocar o ecossistema nacional de investimento, fazendo com que eles olhassem também para o Nordeste e para a Bahia.  O diálogo com os atores públicos e privados, e do terceiro setor são as maiores dificuldades que temos enfrentado hoje.

ATLANTICO – Apesar de ser a primeira capital do Brasil e uma das cidades mais populosas do país, faltam iniciativas para valorizar o potencial empreendedor de Salvador. Quais as razões disso, na sua opinião?

Paulo Rogério – A cidade de Salvador tem bastante empreendedorismo, mas a maior dificuldade é a qualificação dos empreendedores e isso está diretamente ligado ao racismo estrutural da nossa sociedade. Existem cidades fora do Brasil onde a maioria da população é negra, mas que conseguiram reverter essa realidade como Atlanta, uma capital com muitos investimentos negros. Outra razão é o fato da cidade estar localizada no nordeste brasileiro, a região mais desigual do país e a economia ser ainda voltada para as indústrias mais tradicionais e informais. Por isso trabalhamos com a ideia de que é preciso dar ferramentas para que essas indústrias saiam da informalidade e cresçam rapidamente, pois elas são criativas, só não têm oportunidades.

Cidade de Salvador, Bahia, Brasil.

ATLANTICO – De que forma o projeto capacita e apoia empreendedores para futuros investimentos?

Paulo Rogério – Nós temos editais para que as pessoas se inscrevam.  Depois, elas passam por uma pré-aceleração, onde participam de algumas sessões de mentorias, palestras, para em seguida serem selecionadas para a aceleração de fato, que normalmente dura de dois a três meses. Nessa aceleração, essas pessoas passam por sessões de mentoria que consiste na formação com profissionais qualificados e empresários de grande sucesso ou profissionais liberais que se dispõem a falar sobre uma dada área do empreendedorismo. Também oferecemos consultoria financeira, jurídica e contábil, para que seja possível identificar possibilidades e eventuais problemas. Por fim, fazemos encontros com potenciais investidores para que eles possam conhecer o negócio, apresentar sugestões e começar o relacionamento. No ciclo passado, quase metade dos empreendedores que nós apoiamos conseguiu algum tipo de investimento. Então, de certa forma, isso teve um bom resultado, tendo em conta a conjuntura econômica do Brasil e os problemas estruturais que nós enfrentamos. Esperamos que, nos próximos ciclos, mais empreendedores possam conseguir investimentos.

“Se nós pararmos para pensar, uma solução criada na periferia de Salvador pode escalar para a periferia de Fortaleza, de Recife, Nairóbi ou Acra porque as dificuldades são parecidas. Temos um grande mercado e ele está na base da pirâmide, nas margens da periferia, ocasionada por todos esses anos de rejeição”.

ATLANTICO – Qual o impacto disso na transformação da cidade de Salvador num polo de criatividade e inovação? Que resultados já existem hoje?

Paulo Rogério – De 2016 para cá tivemos muitas mudanças. Primeiro, na percepção das pessoas sobre essa nova modalidade de empreendedorismo na cidade, se conectando com o tema da inovação e criatividade.  Essa conquista não é apenas mérito nosso, mas de outros atores e organizações. Isso teve um impacto tecnológico muito grande e a cidade abraçou esse tema.

Há dois anos, nós organizamos aqui em Salvador, o maior festival afro-tecnológico do Brasil, uma ocupação afrofuturista que trouxe pessoas de diversas empresas e organizações. A partir desse tipo de ação, nós temos plantado essa semente e a cidade tem reagido muito bem. Ela está passando por um grande momento de transformação urbanística, de reforma dos espaços públicos, de investimento em metrô, mobilidade e por isso achamos que toda essa conjuntura é favorável para que a cidade abrace essa causa. Em relação a resultados, ano passado tivemos um número de 30.000 mil pessoas passando e interagindo em nossas atividades no Shopping da Bahia com oficinas, workshop, palestras, debates e quase 50% dos nossos acelerados conseguirem algum tipo  investimento. Apoiamos 30 empreendimentos de startups no mês de Janeiro e o resultado material de tudo isso é a percepção desse diálogo com vários órgãos privados e várias empresas empreendedoras que hoje já reconhecem a cidade como uma cidade mais inovadora. Ainda não somos a mais inovadora do Brasil, mas os resultados iniciais em si são muito animadores e mostram que a cidade está no caminho certo.

Jacqueline Bastos, uma das empreendedoras aceleradas pela Vale do Dendê que possui uma empresa de cosméticos que se inspira na estética dos Orixás.

ATLANTICO – A criação de startups é um dos enfoques da aceleradora. Como vocês trabalham  isso? É mais difícil incentivar a criação de novos negócios ou potencializar negócios já existentes?

Paulo Rogério – Realmente são perfis e desafios diferentes. As empresas que estão sendo criadas agora têm os seus elementos de startups, como tecnologia e poder de escala muito grande. Elas conseguem escalar rapidamente, mas elas têm dificuldades de provar a credibilidade do negócio. Os investidores ficam em suspensão ao verem uma ideia inovadora, porém quando dá certo, traz muita rentabilidade. Já as indústrias mais tradicionais têm a possibilidade real de provar que pode dar certo mais rapidamente. No entanto, são negócios que às vezes são consideradas simples demais ou com pouca inovação. Então, nós temos o papel de mostrar para essas pessoas que os seus negócios têm um potencial competitivo e que possuem algo que não existe em outras empresas. Na nossa perspectiva a diversidade é um diferencial competitivo, por isso selecionamos as empresas com base nisso também.

ATLANTICO – Qual a importância do empoderamento das periferias na formação de novos empreendedores? E porquê esse foco nas regiões periféricas?

Paulo Rogério – Nosso sócio Hélio Santos costuma dizer que “ as periferias são ouro” mas elas são pouco vistas como um lugar de potencial, e sim de pobreza, de baixo valor agregado. Na verdade, esses espaços possuem mercado, inovações, criatividade e  isso acaba se tornando um potencial para nós enquanto aceleradora em relação às aceleradoras tradicionais. Enquanto essas aceleradoras tradicionais e investidores estão buscando investimentos apenas no topo da pirâmide, nós olhamos para a base, porque na base a capacidade de escala é ainda maior. Se nós pararmos para pensar, uma solução criada na periferia de Salvador pode escalar para a periferia de Fortaleza, de Recife, Nairóbi ou Acra porque as dificuldades são parecidas. Temos um grande mercado e ele está na base da pirâmide, nas margens da periferia, ocasionada por todos esses anos de rejeição.

Cartagena, Colômbia, uma das cidades que inspirou Paulo a criar a Vale do Dendê.

ATLANTICO – De que forma outras cidades do mundo influenciam Salvador nesse processo? Você conhece algum  exemplo de cidade que se tornou um grande centro de investimento e potencial econômico a partir de projetos como o da Vale do Dendê?

Paulo Rogério – Sempre falo da cidade de Cartagena, na Colômbia, porque foi uma cidade que até pouco tempo era uma das mais violentas do mundo e em apenas uma década se tornou muito inovadora. Cartagena se parece muito com Salvador. Temos ainda o exemplo de Acra, em Gana, que vem atraindo o mercado de afro-americanos na diáspora. Olhamos para essas cidades e para o cenário internacional e conseguimos enxergar de que forma podemos nos inspirar. Não podemos copiar porque nunca será igual. Mas temos a ideia de que cada cidade tem algo a nos ensinar: Cartagena em relação ao turismo, New Orleans em relação a cultura e à música, Atlanta em relação ao Black Money e empoderamento negro… Então, cada uma dessas cidades nos inspira de alguma forma.

“Nós temos essa filosofia de que para inovar precisamos de diversidade e que a África tem um mercado pujante, rico. Por isso, precisamos estar conectados e assim tentar solucionar os problemas da desigualdade aqui no Brasil”.

ATLANTICO – O projeto tem ligação com outros projetos de empoderamento negro no Brasil?  

Paulo Rogério – Sim, nós temos uma espécie de rede informal onde dialogamos com vários desses investimentos, que acredita em uma nova geração da comunidade afro-brasileira que vê no empreendedorismo e no negócio um caminho a seguir. Não podemos esquecer dos outros caminhos porque na verdade o problema da inserção de pessoas negras nesses espaços é estrutural, educacional, político e social. Mas vemos na economia um caminho a trilhar. Desta forma, dialogamos com outras iniciativas como a Black Money, pois reconhecemos a importância desse diálogo e de um novo olhar sobre o empoderamento, não apenas estético, mas também o empoderamento econômico real.

Paulo Rogério no 6º Fórum Brasil África.

ATLANTICO – O Vale do Dendê possui alguma parceria com países africanos? Vocês têm projetos a serem realizados na África ou  algo nesse sentido?

Paulo Rogério – Formalmente ainda não. Mas o diálogo é muito forte com várias iniciativas africanas. Estamos conectados com o Vale do Silício da Etiópia e com  Vibranium Valley, na Nigéria. Só não temos ainda presença física, mas isso já está em nosso radar. Temos dialogado com Moçambique, Gana, Etiópia, Nigéria.

ATLANTICO – Quais são os próximos passos e os principais desafios do projeto hoje?

Paulo Rogério – Este ano estamos abrindo uma unidade da escola Vale do Dendê na estação de metrô em Salvador, um local que passa mais ou menos 500 mil pessoas por dia. Iremos oferecer cursos na área de inovação, de empreendedorismo e diversidade para esse público. O segundo passo será consolidar mais programas de aceleração e nessa perspectiva estamos buscando novos parceiros. Nós temos essa filosofia de que para inovar precisamos de diversidade e que a África tem um mercado pujante, rico. Por isso, precisamos estar conectados e assim tentar solucionar os problemas da desigualdade aqui no Brasil.

Atividade de aceleração, Vale do Dendê.


Paulo Rogério Nunes é graduado em Comunicação Social pela Universidade Católica do Salvador, especialista em Política e Estratégia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e em Jornalismo e Novas Mídias pela Universidade de Maryland nos EUA, através do programa de bolsas de estudos Fulbright. Além da Vale do Dendê, Paulo também é co-fundador, e um dos diretores, do Instituto Mídia Étnica, maior ONG de mídia e diversidade no Brasil.  É um dos criadores da plataforma de notícias Correio Nagô, principal portal de notícias dedicado ao público afrodescendente do Nordeste e que possui editorias sobre direitos humanos, tecnologia e diversidade cultural. Por meio da sua vasta experiência internacional em mercados multiculturais, Paulo já teve contato com executivos de grupos como ABC News, Washington Post, Bloomberg e New York times.


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