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Por que não devemos usar os fogos em Angola para esquecer o dilema da Amazónia

No dia 23 de Agosto de 2019, fiquei chocado com a reportagem da Bloomberg, sugerindo que “havia mais fogos em Angola e no Congo do que na Amazônia”. O seu primeiro parágrafo estava cheio de bombardeios, uma linguagem claramente tendenciosa com a intenção de subestimar a situação da Amazónia, comparando-a com o que aconteceu em Angola ao mesmo tempo: “Os incêndios na Amazónia aqueceram as políticas ambientais do presidente Jair Bolsonaro, mas Brasil é, na verdade, o terceiro no mundo em incêndios florestais nas últimas 48 horas”.

Rapidamente, comecei a questionar a veracidade dos dados apresentados no artigo da Bloomberg, bem como, ao serem verdades, por que motivo ficariam o governo e os media angolanos, em geral, indiferentes às supostas questões ambientais extremamente sérias que ocorrem no país. Então, pensei comigo: se Angola, um país menor que o Brasil, está a registar mais incêndios do que os da Amazónia, não deveria o seu Presidente, João Lourenço, emitir um estado de emergência e começar a combatê-los, para evitar danos irreparáveis?

Foto: Arcanjo Wacunzo

Dada a falta de dados confiáveis (divulgados por fontes oficiais angolanas), acessíveis ao público sobre esses incêndios, convidei o meu amigo Aires R. Gonguela, a juntar-se a mim na investigação da veracidade dos dados divulgados pela Bloomberg, assim como numa reflexão sobre o porquê de o governo angolano não estar a informar os seus cidadãos de maneira responsável sobre esse assunto.

Igualmente, curioso sobre o artigo da Bloomberg, Aires analisou dados compilados pela NASA (colectados em tempo real pelo MODIS [C6]) sobre incêndios activos. A base de dados da NASA forneceu-lhe três conjuntos de dados: um sobre os incêndios das últimas 24 horas, outro sobre os incêndios das últimas 48 horas e o terceiro acerca dos incêndios ocorridos nos últimos sete dias, usando o dia 23 de Agosto como base da investigação. Usando um software GIS (ArcGIS online, especificamente), Aires conseguiu criar um aplicativo interactivo, que exibe os três conjuntos de dados em um mapa do mundo.

Foto: Reprodução Aires R. Gonguela

O link a seguir é para o mapa interactivo mundial de incêndios:
https://msugis.maps.arcgis.com/apps/InteractiveLegend/index.html?appid=5a20ec8029714652a752505561e5a0bc (World-Wide active Fire)

Além disso, Aires separou os dados e manteve apenas os relacionados com os incêndios que ocorreram dentro das fronteiras angolanas nas últimas 48 horas, contados de 23 de Agosto de 2019.

O link seguinte é para o “mapa interactivo no Incêndio Activo Angolano 24H, 48H”:https://msugis.maps.arcgis.com/apps/TimeAware/index.html?appid=103042300fd044c385e6c273dd92d9a4 (Angola Active Fire)

Foto: Reprodução Aires R. Gonguela

De acordo com estas descobertas, em Angola, ocorreram 6.368 incêndios nas últimas 24 horas, 11.099 incêndios nas últimas 48 horas e 26.624 nos últimos sete dias, usando de 23 de agosto como linha de base. Para mais informações sobre o que os satélites da NASA colectaram sobre os incêndios em Angola, basta clicar nos pontos individuais nos dois mapas interactivos, encontrados nos links acima.

Depois de ler o artigo da Bloomberg e revisar o banco de dados da NASA sobre incêndios em Angola nas últimas 24 horas, 48 ​​horas e 7 dias a contar de 23 de agosto, entendemos que Angola realmente registou mais incêndios do que o Brasil. Os números divulgados no artigo da Bloomberg parecem ser precisos. No entanto, de modo algum, devemos usar dessas informações para desviar a opinião e a atenção pública do que está a acontecer na floresta amazónica. A floresta amazónica está a queimar num ritmo sem precedentes, conforme informado por várias agências de notícias locais e internacionais, e esses incêndios são consequências do vasto desmatamento realizado por empresas para agricultura, pecuária e exploração de madeira e muitas outras actividades económicas.

A floresta amazónica está a queimar num ritmo sem precedentes

Segundo a CNN, apenas este ano, o “Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (conhecido como “INPE”) registrou 72.843 incêndios no país, sendo mais da metade deles observados na região amazónica”. Além disso, de acordo com o INPE, “ocorreu um aumento de 80% no desmatamento em comparação com o ano passado”, 2018. Por mais incrível que pareça, “a grande maioria desses incêndios é causada por humanos”, como disse Christian Poirier, director do Amazon Watch, programa de organização sem fins lucrativos, à CNN. Ademais, ao contrário de outros ecossistemas, como as savanas, a Amazónia não sofre incêndios naturais periódicos e os incêndios causados ​​pelo homem têm consequências catastróficas para a floresta tropical.

Enquanto algumas pessoas optam por ignorar, o desmatamento da floresta amazónica trará consequências devastadoras para o Brasil e o mundo inteiro. O céu escuro sobre São Paulo, a maior cidade do Brasil e localizada a mais de 1.700 milhas de distância da Amazónia, é apenas um pequeno indicador e uma sugestão local de um dilema ambiental global maior a ter lugar brevemente. Além disso, as populações indígenas estão a ser extremamente afectadas pelo desmatamento da Amazónia, motivada por práticas “humanas desumanas”, discriminatórias e sem consideração pela pessoa humana. Além de perderem o seu habitat, tradições e valores culturais, os povos indígenas estão, acima de tudo, a perder a sua principal fonte de vida.

Embora os incêndios, em Angola, sejam mais numerosos do que os do Brasil, eles estão longe de atingir o tamanho daqueles que assolam a Amazónia. Apesar de não termos realizado uma investigação científica profunda sobre o tamanho dos incêndios em Angola, testemunhas locais e imagens colectadas em alguns dos locais de queimadas em Angola demonstraram incêndios em escala muito pequena.

Foto: Arcanjo Wacunzo

Apesar de ser “pecaminoso” usar os incêndios em Angola para minimizar o dilema da Amazónia, é importante preocuparmo-nos com os incêndios em Angola, porque eles estão a poluir o meio ambiente e a danificar os ecossistemas locais. Além disso, urge que o governo angolano tome medidas claras e razoáveis ​​para impedir que esses incêndios causem mais danos à natureza. Seguidamente, aconselhamos o Estado angolano que realize pesquisas ou, pelo menos, promova políticas ambientais e académicas que incentivem estudos científicos sobre incêndios florestais em Angola, bem como outras questões ambientais para facilitar ao acesso a dados ambientais locais e credíveis por parte de estudantes e pesquisadores em geral.

É importante preocuparmo-nos com os incêndios em Angola, porque eles estão a poluir o meio ambiente e a danificar os ecossistemas locais

Em suma, a floresta amazónica está sob extrema ameaça. Portanto, o mundo deve unir-se para apoiar e pressionar as autoridades brasileiras a salvá-la de mais danos, pois Amazónia é o “pulmão da Terra”, possui uma vasta e importante biodiversidade. Mais importante ainda, abriga várias populações indígenas. Por estas e muitas outras razões, o desmatamento deve ser desencorajado, seja em Angola, no Brasil seja em qualquer lugar.

Autores

Aires R. Gonguela  é Analista de SIG, Matemático e Ninja Espacial

Pedro Domingos Paposseco Manuel é pesquisador em Estudos Internacionais e de Área, formado em Estudos Internacionais e de Área, e em Relações Públicas e Administração, com uma terceira especialização em Ciência Política.

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