Tilápia: um curativo natural

Desde 2014, pesquisadores brasileiros estudam o uso medicinal da pele da tilápia. O peixe, originário do norte da África, é a nova aposta da medicina para curar ferimentos de forma eficiente e econômica. Primeira pele de animal aquático do mundo estudada no tratamento de queimaduras, o curativo biológico de tilápia deve reduzir um problema global de saúde pública que representa cerca de 180 000 mortes por ano, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. A maioria destes casos ocorrem em países de baixa e média renda sendo que quase 2/3 do total acontecem na África e no Sudeste Asiático.

Por enquanto, o tratamento, que já tem patente internacional registrada, está disponível apenas para feridos por queimaduras do Instituto José Frota (IJF), em Fortaleza. 120 adultos e 30 crianças já foram beneficiados até agora. Em 2018, a técnica será ampliada para pacientes de hospitais das cidades de Goiânia, Recife, Bauru e Curitiba. Além disso, a etapa de testes em outros tipos de ferimentos devem começar nos próximos meses. “O uso em queimaduras representa apenas 7% do potencial da técnica. Precisamos mostrar que ela funciona bem em diferentes feridas como úlceras de pressão, úlceras varicosas e feridas em diabéticos”, diz Odorico Moraes, coordenador do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará (UFC) e um dos responsáveis pelo estudo. “Já mostramos que tudo funciona bem em pacientes queimados. Agora precisamos seguir os trâmites burocráticos para oferecer isso a um público maior e também para fazermos outros testes”.

Na primeira etapa do estudo, entre fases de laboratório e testes em animais, a análise da pele revelou que a tilápia contém uma grande quantidade de colágeno tipo 1 – duas vezes superior ao da pele humana – acelerando o processo de cicatrização. Além disso, a pele tem alto grau de resistência à quebra e elevado grau de umidade, características ideais tamponando a ferida. Evita perdas líquidas, diminui o número de troca de curativos e, consequentemente, diminui também a dor e o sofrimento do paciente”, afirmou o cirurgião plástico Edmar Maciel, presidente do Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ) e coordenador da fase clínica da pesquisa.

Outra vantagem é que a pele de seres aquáticos tem menor risco de transmissão de doenças se comparada como outros tipos de animais. “Pesquisadores mundo afora já buscavam curativos biossintéticos temporários, como a pele de porco e rã, mas os riscos de infecção e o custo limitam os avanços no uso dessas técnicas”, explica Cybele Leontsinis, coordenadora de enfermagem do Centro de Tratamento de Queimados do Instituto Dr. José Frota (IJF). “Outros tipos são as coberturas sintéticas com espumas de poliuretano que liberam medicações. Elas ajudam muito na reparação mas também apresentam um custo elevado”.

PRÓXIMOS DESAFIOS

O próximo passo é garantir o fornecimento ininterrupto da matéria-prima, para alimentar o banco de pele que foi criado no final desta primeira fase da pesquisa. O processamento da pele da tilápia, feito manualmente pelos próprios pesquisadores, será industrializado. Para isso, um contrato está sendo fechado com uma indústria de beneficiamento do pescado, que vai entregar a pele do animal já pronta para uso nos centros de queimados.

Contudo, o principal desafio é modificar os protocolos atuais da comunidade médica. “A gente espera quebrar esse paradigma de usar somente creme e trocar curativo todo dia. A Sulfadiazina de Prata, que é o tratamento usado hoje no Brasil, está no mercado há mais de 60 anos. E desde então não existe inovação no tratamento de queimados aqui no Brasil”, comemora Odorico Moraes. “Até o momento não observamos nenhuma contraindicação com a pele da tilápia. O que estamos estudando agora são ajustes de pele, formas de colocação, melhor maneira de dar mais conforto ao paciente”, salienta Edmar Maciel. O estudo sobre essa técnica desenvolvida no Brasil já foi divulgado em 32 países e publicado em 11 idiomas diferentes nas mais importantes revistas científicas internacionais. “O sonho de um só é apenas um sonho. O sonho de muitos é o começo de uma nova realidade”, revela o médico Marcelo Borges, um dos idealizadores da pesquisa.

UM CRONOGRAMA COMPLEXO

As tilápias são retiradas do açude Castanhão, em Jaguaribara, maior reservatório de água doce do Ceará, localizado a 260 quilômetros de Fortaleza. “As peles são lavadas no local de retirada com água corrente pela própria equipe, colocadas em caixas isotérmicas e levadas para o Banco de Pele na Universidade Federal do Ceará”, explica Edmar Maciel. Depois de passarem pela esterilização inicial, são enviadas para o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) da Universidade de São Paulo (USP), onde passam por uma radioesterilização, procedimento que elimina possíveis vírus e garante a segurança do produto. “O transporte é feito em condições especiais, com temperatura específica seguindo critérios sanitários bem rigorosos”, lembra Cybele Leontsinis, do Instituto Dr. José Frota (IJF). Quando voltam para o banco de pele do estudo, após cerca de 20 dias, as peles são refrigeradas, e podem ser utilizadas em até dois anos.

A RELEVÂNCIA ECONÔMICA DA TILÁPIA

A tilápia-do-nilo (Sarotherodonniloticus), utilizado no tratamento de queimados, é um peixe africano da família Cichlidae, conhecido pelos antigos egípcios já em 2000 a.C. Alimenta-se de plâncton, mas aceita bem ração artificial. A espécie chegou no Brasil em 1971 para ser produzida em cativeiro no Ceará e rapidamente se disseminou pelos outros estados e países vizinhos. Hoje, o Brasil está entre os dez maiores produtores de tilápia do planeta, no ranking liderado pela China. O pescado representa 90% do total de peixes cultivados no Brasil atualmente.

COMO TUDO COMEÇOU

A ideia da pesquisa surgiu em 2011 quando o cirurgião plástico Marcelo Borges leu uma notícia sobre o uso da pele da tilápia para produção de bolsas e sapatos femininos. A mesma notícia dizia que 1% da pele da tilápia era utilizada no artesanato enquanto os outros 99% eram jogados no lixo. A partir de então, Borges, que já trabalhava com queimados há mais de três décadas, decidiu estudar a pele do animal para o tratamento de queimaduras. “Na época, eu dirigia o banco de pele em Recife e aprendi a esterilizar a pele humana de forma segura. Esse meu aprendizado serve de base para o protocolo de esterilização da pele da tilápia. Tentei viabilizar esse projeto de pesquisa em Pernambuco mas não tive exito”, lembra. A pesquisa só começou em 2014, quando encontrou em Fortaleza tudo que precisava: a estrutura da Universidade Federal do Ceará e seu corpo de pesquisadores, além da parceria com o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ) e com o Instituto Dr. José Frota (IJF), hospital de alta complexidade que atende pacientes vítimas de queimaduras.

CUSTOS DA PESQUISA

O custo inicial da pesquisa foi de 1 milhão de reais, valor considerado ínfimo para um estudo com tamanha repercussão na comunidade acadêmica. “Esses custos foram reduzidos porque a Universidade Federal do Ceará já dispõe de toda uma estrutura de pesquisa. Mas em condições normais gastaríamos cerca de 15 milhões de reais”, acredita Odorico Moraes. A primeira etapa teve financiamento da empresa Enel, concessionária de energia elétrica. A próxima etapa deve custar 2 milhões de reais e terá patrocínio de uma universidade privada local.

 

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